Ttulo: Um beijo roubado.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1984.
Ttulo Original: Lucky in Love.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

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Os passos no corredor se aproximavam mais e mais. Rpida, Lara se 
escondeu, entrando no primeiro quarto a sua frente. Mal fechou a porta, 
quando ela foi aberta com deciso e o vulto de um homem entrou 
sorrateiramente! Estava escuro, mas Lara reconheceu o perfume que o 
envolvia e teve a certeza de que aquele era o belo marqus de Keyston, 
seu patro. Tateando, ele se aproximou at segur-la num longo abrao 
quente e possessivo, enquanto sua boca viril esmagava os lbios trmulos 
de Lara num beijo de amor. Tudo era to novo e inesperado que ela se 
entregou como se estivesse sonhando. Um sonho do qual acordou 
subitamente, quando o marqus, soltando-a, murmurou ao sair: Boa noite, 
Dayse... "

Barbara Cartland
Um beijo roubado
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo
Ttulo original: "Lucky in Love"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1982
Traduo: Lygia Junqueira
Copyright para a lngua portuguesa: 1984 Abril S. A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi composta na Linoart Ltda. e impressa na Editora Parma Ltda.

Nota da Autora
A sorte de uma governanta, nas pocas vitoriana e eduardiana, era 
miservel e assustadora, tal como a descrevi neste romance. Minha me 
sempre dizia que tinha pena delas, porque, quando falavam, eram 
consideradas "salientes" e, quando ficavam caladas, eram consideradas 
"montonas".
Uma governanta bonita era tambm considerada presa fcil. Lembrome de que 
um conhecido "almofadinha" da gerao de minha me disse:
- Numa casa onde me hospedei, havia uma governanta que era uma belezinha. 
Pensei em seduzi-la, mas achei que isto no seria direito. Depois, com 
mil diabos! Fiquei sabendo que meu melhor amigo fizera justamente isto!
Entre a cozinha e a sala de visita, a governanta em geral era ignorada e 
se sentia solitria e isolada. Mas, naquela poca, no havia outra 
profisso para uma jovem respeitvel, a no ser servir de dama de 
companhia a uma criana ou a alguma aristocrata velha e rabugenta.

CAPITULO I
1887

A porta se abriu e uma voz disse, asperamente: 
 - Vamos l, srta. Lara! Um dia to bonito e a srta. em vez de estar l
fora respirando o ar fresco, fica aqui fechada, rabiscando sem parar!
A honourable Lara Hurley ergueu a cabea e retrucou, sorrindo:
- Estou rabiscando sem parar com uma finalidade, Nanny. Quando eu ficar
famosa voc vai ter orgulho de mim.
Nanny, que estava com a famlia fazia mais de vinte anos, apenas fungou, 
contrariada, comeando a pr ordem na sala. Pegou uma echarpe de uma 
cadeira, um chapu de palha de outra e vrios livros que tinham sido 
atirados no cho.
Lara reclinou-se na cadeira e exclamou:
- Oh, Nanny, voc agora quebrou o fio do enredo, e eu estava tendo tanta 
dificuldade com este captulo!
- No compreendo por que deseja escrever um livro, quando a casa est 
cheia deles - replicou a bab.
- Diz isto agora, mas quando eu o publicar voc vai ser a primeira pessoa 
a me pedir um exemplar autografado.
Nanny tornou a fungar, como se isto fosse pouco provvel. Lara
continuou:
- Tudo bem, Nanny, mas o que posso fazer para ganhar dinheiro? Bem sabe o 
quanto precisamos!
- No  este o tipo de ocupao que d dinheiro. Pelo que ouvi dizer, os 
autores famosos sempre viveram famintos em mansardas, antes que seus 
livros fossem publicados.
- Tem razo. Embora eu no esteja morrendo de fome, graas a voc, 
preciso desesperadamente de um vestido novo. Alm do mais, se eu 
continuar indo  igreja com o mesmo chapu por mais cinco anos, ele 
acabar caindo aos pedaos quando eu estiver entoando os salmos. E voc 
vai se envergonhar de mim!
A bab no respondeu e Lara continuou:
- No que algum na igreja note o que estou usando! Vivendo nesta aldeia 
montona e cacete, voc acha absurdo que eu use a minha imaginao para 
me divertir um pouco?
- No vou dizer que no use a imaginao, srta. Lara. Mas anda muito 
plida e precisa de ar fresco para que a cor volte a seu rosto replicou a 
bab, azedamente. - No sei por que no se dedica a jardinagem ou 
pintura, como fazem outras jovens senhoras.
- Que jovens senhoras? - perguntou Lara. - No h nenhuma da minha idade, 
por aqui. Voc bem sabe.
Percebendo que estava levando a pior na discusso, Nanny dirigiu-se
para a porta.
- No posso ficar aqui tagarelando o dia inteiro - disse. - Tenho que 
fazer o jantar de seu pai. A tal galinha que o velho Jacobs matou  to 
dura que vou precisar cozinh-la durante horas, para algum conseguir 
mastig-la!
Sem esperar resposta, Nanny saiu do escritrio, fechando a porta, de modo 
que no ouviu a risada de Lara.
A dureza da galinha era o pomo da discrdia entre Nanny e Jacobs, o 
empregado "pau-para-toda-obra" que cuidava da fornalha, da horta e das
cocheiras.
Lara ficava muitas vezes imaginando o que fariam sem ele, pois
certamente no iriam encontrar ningum que fizesse o trabalho do velho 
por um ordenado to pequeno.
- Dinheiro! Dinheiro! - murmurou consigo mesma. - No  a "fonte de todos 
os males", como dizem. Na verdade  uma necessidade e uma preocupao.
Muitas vezes Lara pensava que era ridculo seu pai ter herdado o ttulo 
da famlia e no ter nenhum dinheiro para sustentar-se.
Sendo o filho mais moo do terceiro lorde Hurlington, ordenara-se pastor, 
ao passo que seu irmo mais velho, Edward, servira nos Granadeiros, 
conforme o costume.
com a morte de Edward, vtima de uma febre maligna, no Egito, o reverendo 
Arthur Hurlington tornou-se o herdeiro do baronato.
Assim, quando o av de Lara morreu, deixou um monto de dvidas que foram 
saldadas parcialmente com a venda de uma casa da famlia, com tudo o que 
havia dentro.
Sendo um homem consciencioso e honrado, o novo lorde Hurlington 
trabalhava com afinco para poder pagar com o que ganhasse as dvidas que 
restavam.
Isto significava que sua mulher e sua filha tinham que economizar cada 
nquel. Um vestido novo ou mesmo um chapu eram coisas para se esperar 
indefinidamente, at que a situao melhorasse.
- Como  que vov pde ser to extravagante? - perguntara Lara,  sua 
me, inmeras vezes.
Lady Hurlington no tinha resposta. Comeou a definhar, at que a morte a 
levou.
Lara sempre atribuiu a morte da me a uma alimentao inadequada e 
insuficiente e ao fato de no terem dinheiro para comprar os remdios 
caros que ela necessitava.
Depois que fez dezoito anos e deixou de ser considerada uma colegial, 
Lara ficou obcecada pela ideia de ganhar dinheiro.
Entretanto, no pretendia deixar o pai sozinho, mesmo que conseguisse um 
emprego lucrativo fora de casa, o que era praticamente impossvel.
O tipo de emprego disponvel para uma mulher respeitvel era ser 
governanta ou dama-de-companhia de alguma aristocrata velha e rabugenta.
Quando Lara falou dos seus planos a Nanny, a velha retrucou:
Voc  jovem demais para isto.
Nem tenho a menor vontade de ser professora de crianas observou Lara. - 
Mame sempre dizia que as governantas tm uma vida miservel, entre o cu 
e o inferno!
Nanny fitou-a, esperando uma explicao, e a moa continuou,
sorrindo:
- Elas no esto na cozinha nem na sala-de-visitas e sim numa "terra de 
ningum" entre estes dois lugares, o que deve ser muito desagradvel.
Mais tarde, achando esta ideia interessante, resolveu escrever um romance 
sobre as governantas.
A herona seria muito bonita e muito pobre. Arranjaria emprego na casa de 
um duque. Como o duque naturalmente era vivo, acabaria casando com a 
moa e viveriam felizes para sempre.
Lara achava que era um romance que ela mesma gostaria de ler. Tinha 
certeza de que, depois de pronto, encontraria um editor e ficaria rica.
- Talvez fique famosa, como lorde Byron, da noite para o dia!
Havia tambm as irms Bronte, que, sendo filhas de um pastor, estavam 
mais ou menos na situao dela, vivendo no Yorkshire selvagem. Embora no
se pudesse chamar Little Fladbury de selvagem, essa cidade onde Lara 
vivia era certamente montona e ali nada acontecia, ano aps ano.
Nos romances, existia sempre uma grande manso, onde vivia o senhor 
rural, que era jovem e atraente e se apaixonava por uma bonita alde. Ou 
ento, se fosse velho e ranzinza, tinha sempre um filho moo e 
suficientemente ousado para fugir com a mulher amada.
Sendo filha nica e passando muito tempo sozinha, Lara dava asas  
imaginao. Somente sua me havia compreendido que, para ela, os 
personagens fictcios eram to verdadeiros como as pessoas com quem 
convivia.
Lara estava satisfeita de j ter escrito dois captulos do seu romance. 
Mas, por outro lado, no conseguia desenvolver o terceiro.
Isto porque a herona, tendo arranjado emprego na casa de um duque, se 
preparava agora para morar num castelo ancestral.
- Como poderei descrever um lugar desses, se no conheo nenhum?
- perguntou Lara, a si mesma.
 Ficou imaginando se seria possvel ir a cavalo examinar algumas das
manses da vizinhana, no muito longe de Little Fladbury. Mas a verdade
era que na rea onde ela morava no havia manses importantes.
Entretanto, a uns quinze ou vinte quilmetros dali havia vrias casas de 
aristocratas. Quem sabe, se as visse, isto poderia ajud-la.
Mas o nico cavalo que seu pai possua, Rollo, estava ficando velho e 
provavelmente no aguentaria andar quinze ou vinte quilmetros.
Bem, um dos fazendeiros poderia lhe emprestar um cavalo, mas, mesmo 
assim, a distncia era um problema.
Seria demais viajar quinze quilmetros na ida e quinze na volta e 
conseguir regressar ainda na mesma tarde. No iria tampouco passar a 
noite ao relento!
- Creio que todos os escritores encontram essas mesmas dificuldades
- pensou.
Mas isto no era consolo. Olhando com tristeza para o manuscrito, 
resolveu seguir o conselho de Nanny e ir para o jardim tomar sol.
Nanny estava sempre interrompendo-a e tentando impedir que Lara se 
concentrasse no romance.
A moa sabia que, de certo modo, era cime, pois a bab no gostava da 
ideia de Lara ter crescido e possuir ideias prprias.
Era difcil imaginar o que eles teriam feito sem Nanny para cozinhar, 
limpar a casa e cuidar do pai de Lara, como fizera desde que a me 
morrera.
- Vou at o pomar - murmurou Lara. - Isto vai agradar a Nanny e talvez me
d alguma ideia para o prximo captulo.
Entrou no hall, onde Nanny colocara o chapu de palha que Lara usava no 
jardim.
Lara pegou o chapu e ia sair, quando ouviu baterem na porta de entrada.
Ficou imaginando quem seria.
Vendo que Nanny no aparecia, Lara achou melhor ir abrir a porta.
Por um momento ficou imvel, olhando para a visita; depois soltou um 
gritinho de alegria.
- Jane! Jane! Que prazer tornar a v-la! j
- Para mim tambm, Lara. Estava com saudade.
- Entre! Estou ansiosa para saber as novidades.
10
Jane Cooper, uma moa de vinte e quatro anos, entrou no hall e olhou para 
Lara, nervosamente, como se mal acreditasse que a amiga estava satisfeita 
por rev-la.
O sr. Cooper, pai de Jane, j falecido, fora professor de Lara, durante 
muitos anos.
Quando Jane nascera, seu pai j era bem idoso. A me morrera de parto, 
deixando-o desolado. A partir de ento dedicou-se  sua adorada filha 
nica.
Passava o tempo dando aula  pequena Jane, como fazia com os rapazes da 
escola pblica onde ensinara at o dia de se aposentar.
A me de Lara considerava-o um homem inteligente e timo professor, assim 
pediu-lhe que aceitasse sua filha como aluna.
Embora Jane fosse bem mais velha do que Lara, as duas logo ficaram 
amigas. Tinham gnios muito diferentes, mas se davam muito bem.
Jane, talvez pelo fato de nunca ter conhecido o amor maternal, era 
tmida, apagada e insegura. Mas era bonita, com sedosos cabelos loiros e 
a pele clara e rosada.
Seu trao mais expressivo eram os olhos azuis que pareciam ver o mundo 
com surpresa, como se a dona no quisesse se envolver em nada que no 
fosse totalmente simples.
Na realidade, Lara achava que, apesar de Jane ser muito culta, era mais 
imatura e menos sofisticada do que ela.
A morte do sr. Cooper foi um desastre, porque sua pequena penso acabou e 
Jane teve que trabalhar para ganhar a vida.
O nico cargo que ela podia desempenhar era o de governanta. Foi lady 
Hurlington, a me de Lara, quem lhe arranjou um lugar em casa de uma 
parente do marido.
Jane ficou muito grata. Ento empregou-se em casa da sra. Ludlow, cujos 
trs filhos pequenos ficaram a seus cuidados. Era professora das 
crianas, e com sucesso, pelo que Lara soube.
A vinda de Jane fora providencial, tendo chegado justamente no momento em 
que Lara precisava de informaes sobre as casas ricas para utilizar em 
seu romance. Levou a amiga para conversarem no escritrio.
- Sente, Jane. com certeza j almoou? Como ainda  cedo para o ch, vou
pedir a Nanny que traga uma xcara de caf.
11
- No quero nada, Lara, a no ser a sua ajuda-respondeu Jane.
- Minha ajuda? - exclamou Lara, sorrindo. - isto o que desejo de voc!
Percebeu que a amiga estava perplexa e continuou:
- No se preocupe, por enquanto. Primeiro diga o que deseja de mim. Jane 
tirou as luvas brancas de algodo, colocou-as numa mesinha e
cruzou as mos.
- Oh, Lara, estou numa... enrascada!
Pelo seu tom de voz Lara percebeu que era srio.
- Numa enrascada, Jane? O que aconteceu?
- Francamente... no sei por onde comear - respondeu. - Mas vim aqui 
para perguntar a seu pai... se ele pode ter a bondade de me dar uma... 
carta de referncia.
- O que aconteceu com a outra?
- Lady Ludlow entregou-a ao marqus de Keyston, onde estou empregada - 
respondeu Jane.
- Voc saiu da casa de lady Ludlow? - perguntou Lara. - Eu no sabia.
- No foi por eu ter feito alguma coisa errada - disse Jane, vivamente. - 
Mas os dois meninos foram para a escola preparatria e ficou decidido que 
a menina teria aulas com crianas da sua idade.
- Pobre Jane! Ento, no precisaram mais de voc.
- Fiquei muito triste por sair do emprego. Fui muito feliz l. Lady 
Ludlow era muito boa.
- Ela lhe arranjou um novo trabalho? Jane inclinou a cabea assentindo.
- E o que h de errado, nesse outro?
Por um momento, Lara pensou que a amiga no fosse responder. Nos olhos 
azuis havia uma expresso enigmtica. Finalmente, Jane falou:
- Oh, Lara... Estou to assustada... No sei o que fazer.
- Conte tudo desde o princpio.
Ocorreu-lhe de repente que o que Jane lhe ia revelar sobre sua vida como 
governanta era exatamente o que ela precisava saber para o romance.
12
Logo se arrependeu, achando aquele pensamento egosta. Precisava procurar 
um jeito de ajudar a amiga naquela difcil situao.
Quando lady Ludlow me disse que eu iria para a casa do marqus,
fiquei com medo porque ele  muito importante - contou Jane.
- Quem ? Nunca ouvi falar nele.
-  amigo do prncipe de Gales e possui muitos cavalos de corrida. Lady 
Ludlow falou dele demonstrando que o admirava muito.
- Parece algum fascinante! - exclamou Lara. - Continue, Jane. Que tal a 
esposa do marqus?
- Ele no  casado - respondeu Jane. - Dou aulas para sua sobrinha, filha 
nica de um irmo que morreu sem deixar filho homem.
- Oh, compreendo.  por isto que ele  o atual marqus.
-  verdade. E Georgina  uma boa menina.
- Que idade tem?
- Dez anos. Mas no  nada inteligente e no consigo fazer com que 
aprenda grande coisa.
- Onde  que o marqus mora?
- Numa casa enorme, chamada Keyston Priory. Tem um belo parque. Eu teria 
sido feliz, ali, a no ser...
Interrompeu-se e mordeu os lbios trmulos. Os olhos de Lara brilharam, 
interessados.
- Que aconteceu, Jane?  o marqus que est complicando a sua vida?
Rapidamente a imaginao de Lara o transformou num vilo, como numa pea 
de teatro. Um homem que ameaava a donzela pura, que era Jane. E somente 
o heri poderia salv-la!
- No, no  o marqus que me... aborrece - respondeu Jane, a voz 
trmula. -  o amigo dele.
- Que amigo?
- Chama-se lorde Magor... e  muito idoso.
11 
Lara esperou. Agora as palavras pareceram jorrar dos lbios de Jane:
- Oh, Lara, tenho tanto medo dele! No sei o que fazer. Preciso sair de
l... e no tenho para onde ir.
Lara puxou sua cadeira para mais perto da amiga.
- O que est ele fazendo para assust-la, Jane?
13
- Vai sempre  sala de aula,  noite, quando estou... sozinha. Anteontem,
ele tentou me beijar... Oh, Lara, sei que isto  errado... mas ele no me
ouve... quando o mando embora.
- Mas hoje voc conseguiu sair?
- Foi pura sorte - respondeu Jane. - Georgina teve uma dor de dente
horrvel, ontem de manh. Ento eu disse ao-secretrio do marqus, o sr.
Simpson, que ela precisava ir ao dentista.
- Voc a levou a Londres?
- Exatamente. O dentista descobriu que ela estava com um abcesso e 
insistiu para que ficasse de cama, hoje.
Respirou fundo e continuou:
- A velha bab de Georgina nos acompanhou a Londres. Isto me deu a 
oportunidade de tomar o trem que me trouxe aqui. Mas preciso ter cuidado 
para no perder o de volta, s cinco horas.
- Voc vai ter que ir a p para a estao, a no ser que papai volte com 
o trole - avisou Lara.
- Sairei com bastante tempo - respondeu Jane.
- Fale mais sobre lorde Magor.
- Ele vai sempre se hospedar na manso, porque o marqus gosta da 
companhia dele. L as visitas so muitas, de modo que no sei por que 
lorde Magor quer falar comigo, quando as convidadas do marqus so to 
bonitas e usam os vestidos mais maravilhosos deste mundo.
- Quero saber tudo a respeito delas, tambm - disse Lara. - Mas fale de 
lorde Magor. Certamente, voc pode lhe dizer que a deixe em paz, Jane.
- Ele no me ouve. Est sempre dizendo que sou muito bonita... e... ... 
dominador. Alm do mais,  difcil... ser grosseira com um homem que tem, 
no mnimo... quarenta anos.
Era exatamente o tipo de homem que Lara imaginara. Tinha certeza de que 
lorde Magor era grande e pesado, de rosto vermelho, e que fumava um 
charuto enorme.
- Voc no podia contar isto ao marqus e pedir-lhe que ordene ao amigo 
que a deixe em paz, Jane? - perguntou.
- Contar ao marqus? - repetiu Jane, horrorizada. - No seria possvel! 
Acho difcil at mesmo lhe dizer "bom-dia", ou "boa-noite". Ele ... 
assustador!
por qu? De que maneira? - Lara quis saber.
 difcil explicar.  muito cnico e autoritrio. Parece sentir
desprezo por tudo e por todos... e... principalmente por mim!
Oh, pobre Jane - exclamou Lara, compadecida. - Parece que
voc foi para o lugar errado.
Melhor do que ningum, Lara sabia como Jane era impotente para lidar at 
mesmo com as menores dificuldades da vida. Muito menos ainda com 
cavalheiros que a perseguiam, obviamente com ms intenes.
Lara sabia, pelos romances que lera, que o vilo estava sempre 
perseguindo a mocinha inocente. No porque desejasse casar com ela, e sim 
para lhe oferecer o que era descrito como sendo "um destino pior do que a
morte."
No tinha a mnima ideia do que isto significava, mas intua que era
alguma coisa relacionada com os dez mandamentos.
Seu pai de vez em quando pregava contra os "pecadores que merecem o fogo 
do inferno". E os pecadores, indubitavelmente, eram os viles das 
histrias de Lara.
Agora, sem mais nem menos, Jane estava lhe dando um timo enredo!
- Fale do marqus - pediu. Jane estremeceu:
- ... assustador e nunca chego perto dele... se for possvel. Mas lorde 
Magor  muito pior. Oh, Lara, o que poderei fazer para que me deixe em 
paz?
Antes que a amiga respondesse, continuou:
- No adianta... No posso ficar em Priory. Foi por isto que vim procurar
seu pai, para lhe pedir que me d outra carta de recomendao. Se eu
pedir ao sr. Simpson que devolva a minha, ele pode pensar que estou 
procurando outro emprego.
- Como  que voc pode arranjar outro, sem que ele saiba que voc vai 
sair?
- Achei que eu poderia escrever a... uma agncia de... empregos respondeu 
Jane, hesitante. - Mais tarde, eu pediria  sra. Ludlow que me... 
recomendasse...
- Garanto que ela far isto.
- Sim, mas no quero que ela conte ao marqus o que pretendo, at
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15
eu ter... para onde ir. Voc sabe que no tenho casa. E os parentes do
papai moram no norte da Inglaterra. No posso ir ficar com eles. - Voc
poderia vir para c - sugeriu Lara. Os olhos de Jane se iluminaram. -
Est falando srio? - Claro que estou. Eu gostaria muito que voc
viesse, e papai tambm. Ele lhe dar uma maravilhosa carta de
referncia. Alm do mais, se voc quiser, posso escrever uma igual  que
mame lhe deu e assinar o nome dela. - Acha que seria... honesto? -
Claro que sim! - respondeu Lara. - Seria como se mame lhe desse a mesma
carta duas vezes. - Sim, creio que sim... - observou Jane, com voz
insegura. -  muita bondade sua, Lara. Mesmo assim, preciso voltar para
l e enfrentar lorde Magor at encontrar outro emprego. - Como  ele? -
perguntou Lara. - Deve ter sido bonito, em moo - respondeu Jane. - A
governanta da casa, a sra. Brigstow, contou que era muito disputado
pelas mulheres!... Creio que  por isto  que ele no compreende por que
no permito que... me beije. - Sabe?... Isto  exatamente o que eu
pensava que acontecesse nas casas grandes, com as governantas. Os
cavalheiros acham que, como elas no pertencem nem  cozinha  e nem 
sala-de-visitas, so uma "presa fcil". Refletia sobre isto, quando
percebeu que Jane estava escandalizada. - Parece horrvel, Lara! Mas
creio que ... verdade. - Pouco antes de voc chegar, eu estava dizendo
a Nanny que mame costumava comentar que a vida de uma governanta 
qualquer coisa entre o cu e o inferno, numa  terra-de-ningum. E  onde
voc se encontra agora. - Sei disto - respondeu Jane, suspirando. - Mas
fico assustada. E  noite, quando me fecho em meu quarto, sempre tenho
medo de que... de um jeito ou de outro... lorde Magor consiga entrar. -
Como  que ele poderia fazer isto? - No poderia...  tolice da minha
parte at mesmo pensar nisto. Mas
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no durmo direito e de manh tenho
dor de cabea... Sinto-me to indisposta que mal posso dar aula a
Georgina. S desejo fugir... e nunca mais voltar. O modo de Jane falar
indicou a Lara que ela estava realmente muito perturbada. Fitando-a com
mais ateno, notou que estava plida e com olheiras. Lembrou que ela
sempre fora muito nervosa. Quando tinha uma discusso com o pai ou
qualquer outra pessoa chorava sem parar e ficava deitada no quarto, sem
querer comer. Ocorreu-lhe que, se Jane tivesse um esgotamento nervoso,
poderia ser despedida e talvez no conseguisse encontrar outro emprego.
- Voc est precisando de umas frias, Jane, isto sim! - declarou Lara.
- Sabe quando poder tir-las? - Esqueci de perguntar, quando entrei no
emprego. Em todo o caso, no quero frias... No tenho para onde ir. -
Acho realmente que est precisando - insistiu Lara. - Como poderia?...
Suponhamos que as coisas melhorem quando o marqus for embora e ne
houver tantas festas na manso. Os empregados disseram que depois da
temporada da caa ele s vem para o campo nos fins-de-semana, de sbado
a segunda. - Voc acha que lorde Magor vir, tambm? - Parece que ele
sempre est l - respondeu Jane. - Desde que estou em Priory, ele s
faltou a uma festa. - Vejo que  mesmo um problema - concordou Lara. -
Mas voc precisa enfrent-lo. Diga-lhe que, se no a deixar em paz, ir
se queixar ao marqus. - Eu no teria coragem para isto. Mesmo que eu
lhe falasse, no seria convincente... Ele no acreditaria. Havia
lgrimas em seus olhos. Ela continuou: - No adianta, Lara. No posso
ficar l... Preciso encontrar um lugar para onde ir. Acha que... posso
escrever para lady Ludlow? - Nunca a vi, embora seja parenta de papai -
disse Lara. - Ela  uma pessoa compreensiva? - Francamente, no sei -
respondeu Jane. - Foi boa para mim quando eu morava l, mas no parava
muito em casa. 
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 - Que quer dizer com isto? - Ela frequenta a mesma
roda do marqus, de modo que est sempre com o prncipe de Gales e
rodeada de gente elegante. -  fascinante! - exclamou Lara. - Continue.
- Naturalmente, as nicas festas que vi foram as de lady Ludlow. Isto
acontecia quatro ou cinco vezes por ano. Havia dois bailes na temporada
de caa, vrias reunies para a prtica de tiro ao alvo, e os
garden-parties que ela dava no vero. - Gostaria de estar presente! -
exclamou Lara. Jane sorriu, com tristeza. - Eu costumava espiar l de
cima, com os outros criados, para ver as senhoras indo para a sala de
jantar. Estavam sempre cobertas de jias. Usavam vestidos to decotados
na frente que garanto que papai ficaria escandalizado. Lara sorriu, mas
no fez comentrios a este respeito. Seu pai muitas vezes lhe contara
como sua me brilhava nos bailes, to bonita ela era! - Mas certamente
voc conversava com lady Ludlow, quando no havia festas? - Eu conduzia
as crianas para a sala de visita, s cinco horas - respondeu Jane. -
Elas detestavam isto e choramingavam o tempo todo, enquanto eu as vestia
com suas melhores roupas. - O que voc fazia, ento? - insistiu Lara. -
Eu as levava para a sala de visita, ficava junto  porta e esperava at
lady Ludlow dizer: "Oh, c esto as crianas! Entrem e venham me beijar,
queridinhos". Jane explicou: - Quando as crianas se adiantavam, a me
perguntava: - Eles se comportaram bem, hoje, srta. Cooper? - Sim, Milady
- eu respondia, fazia uma pequena reverncia e voltava para cima. - S
isto? - perguntou Lara. - Sim, at eu tornar a descer, para buscar as
crianas. - O que acontecia, ento? - Quando eu entrava na sala, lady
Ludlow erguia o olhar e dizia: 
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- C est a srta. Cooper. Agora vo para a cama, queridinhos, e no se
esqueam de rezar. Jane fez uma pausa e depois continuou: - s vezes ela
me olhava e dizia: No v se esquecer de faz-los rezar, srta. Cooper. -
Depois, quando as crianas chegavam perto de mim, eu fazia outra
reverncia e levava-as para cima. Lara riu. - Voc faz com que ela
parea inacessvel. Mas  dessas coisas exatamente que eu quero ficar
sabendo. Agora, deixe que lhe conte uma novidade: estou escrevendo um
livro! - Um livro? - Um romance - explicou Lara. - A herona  uma
governanta, assim como voc, que no final casa-se com o duque. Ento,
pode ser que voc se case com o marqus e faa  com que minha histria
seja verdadeira! Jane fitou-a, horrorizada. - No me casaria com ele,
nem que me pedisse! - exclamou. - O marqus me assusta tanto que, quando
me diz "bom-dia, srta. Cooper", mal posso responder. - Ento, talvez
voc deva casar com lorde Magor - disse Lara, irrefletidamente. Jane
soltou uma exclamao. - Isto  maldade da sua parte, Lara. Odeio aquele
homem! Tenho a impresso de que jamais lhe escaparei e que, no fim, ele
conseguir... o que quer. - Desculpe - disse Lara, vivamente. - No quis
aborrec-la, Jane. Mas... o que  que ele quer? - Uma coisa que  m e
errada! Mas eu sempre fui correta e papai no desejaria que eu fosse
outra coisa - respondeu Jane, apaixonadamente. - No. Claro que no -
disse Lara. Viu que a amiga estava com lgrimas nos olhos e abraou-a. -
Estava apenas brincando com voc, como costumava fazer quando era
pequena e voc ficava zangada comigo. Perdoe-me, Jane. Vou procurar
ajud-la no que me for possvel.  Prometo! 
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Jane enxugou as lgrimas com o leno. - Ningum poder me ajudar -
disse, tristemente. - No h nada que se possa fazer. Quando eu voltar
para Priory, tenho certeza de que lorde Magor estar  minha  espera. -
Ento, voc no deve voltar. De repente, Lara encontrou a soluo para o
problema da amiga. - Escute, Jane. Precisa ser sensata. Fique aqui em
casa e escreva a lady Ludlow, pedindo ajuda. Escreva tambm para a
agncia de empregos, de Londres. - No posso sair sem dar... aviso
prvio - respondeu Jane, com a voz trmula. - Se eu sasse sem mais nem
menos, ningum me daria emprego de novo. - Tem certeza? - Certeza
absoluta! O sr. Simpson est sempre dizendo que jamais dar referncias
a um empregado que sair sem aviso prvio. Quando uma das criadas fugiu
para casar, ele disse: Isto far com que ela jamais encontre servio! 
uma maneira atroz de se comportar e d um mau exemplo a todos os outros,
desta casa! - Quanto tempo antes deve ser dado o aviso? - perguntou
Lara. - Pelo menos um ms e s vezes mais... se os patres no encontram
a tempo quem substitua o empregado. Enxugou de novo os olhos e
continuou: - Como  que eu poderia suportar mais um ms...
sobressaltada... e escutando... com medo de que lorde Magor venha  sala
de estudos? Creio que ficaria louca! Jane parecia to desesperada que
Lara a abraou mais fortemente. - Voc vai se sentir melhor, Jane,
depois que descansar um pouco. - No posso descansar at sair daquela
casa... para nunca mais ver lorde Magor! Jane respirou fundo. Pensou um
pouco e disse, de repente: - Suponhamos... suponhamos apenas que no meu
prximo emprego os patres sejam amigos de lorde Magor, e se ele me
seguir? - Esse sujeito parece mesmo desprezvel - comentou Lara. - Est
precisando de uma boa lio. Creio que s outro homem poderia fazer
isto! 
20

Refletiu por um momento. Logo, outro enredo comeava a formar-se em sua
mente. Podia ver os fatos como se fossem quadros passando diante de seus
olhos. Viu Jane, trmula, na sala de estudo, ouviu passos pesados
subindo a escada, depois lorde Magor entrando para ameaar a governanta,
com olhar ardente, estendendo as mos para agarrar a pobre Jane, que
tremia horrorizada! De repente, Lorde Magor se deteria, incapaz de
mover-se. Encontrara um adversrio  sua altura! Seria vencido e teria
que fugir, como sempre acontecia com o vilo, numa histria onde o bem
triunfa sobre o mal. Lara soltou uma exclamao: - Jane, sei exatamente
o que devemos fazer! - O que ? - perguntou Jane, sem grande entusiasmo.
- Voc no deve voltar para Priory. Vai ficar aqui, descansar, tirar
frias. E Nanny cuidar de voc. - Tenho que voltar, Lara - replicou a
amiga. - Preciso cumprir o aviso prvio, como dizem os criados. Se eu
sair sem mais nem menos, jamais encontrarei outro emprego. E nem terei
uma carta de recomendao de... seu pai. - Ter, sim - afirmou Lara. -
Estou planejando tudo, mentalmente. Soltou a amiga e colocou o queixo
nas mos, em atitude de reflexo. Jane enxugou os olhos e fitou-a,
apreensiva. - No adianta, Lara. Voc  muito boa. Sei que est
procurando ajudar mas... estou presa numa armadilha... da qual no...
escaparei. Sua voz quebrou-se num soluo. Lara levantou-se, como se
achasse mais fcil falar de p. - Escute aqui, Jane. Tenho certeza de
que, antes de ir para Londres, voc devia estar com a cara abatida.
Talvez tenha at se queixado  bab de Georgina, ou a quem estivesse com
ela, dizendo que sentia-se indisposta. - No me lembro de ter dito nada
neste sentido - confessou Jane. Mas tinham percebido que eu no estava
bem, porque at a bab, que gEeralmente  uma pessoa agradvel, se
ofereceu para cuidar de Georgina enquanto eu vinha para c.
 21 
- Est vendo? ?- exclamou Lara, satisfeita. - Para dizer a verdade, ela
prefere ficar sozinha com Georgina. Tem cime de mim. Acha que as governantas
so desnecessrias ou, como vive dizendo, "encrenqueiras". Lara riu. -
Garanto que voc  tudo, menos isto, Jane! - Procuro no ser. Certamente
no quero causar... encrencas a ningum. J estou bastante...
encrencada, eu mesma. - Pois bem, escute o que vai fazer para se livrar
disto - declarou Lara. Jane fitou-a, sem grande esperana. Lara notou
que a amiga estava plida, com o olhar tristonho, to assustada que
poderia ficar doente, o que seria desastroso para o seu futuro.
Sentou-se ao lado dela e falou: - No diga nada, at ouvir todo o meu
plano. Vai ficar aqui; Nanny cuidar de voc, fazendo com que descanse e
coma bastante at ficar boa novamente. Jane ia protestar, mas Lara
ergueu a mo, pedindo silncio. - Vou pegar o trem das cinco para
Londres. Direi  bab de Georgina que voc ficou doente e que eu vou
substitu-la. Jane teve um sobressalto. - Mas...  ridculo! No pode
fazer isto! - Por que no? - perguntou Lara. - Sabe to bem quanto eu
que, como aluna de seu pai, tambm tenho competncia para ensinar
Georgina. - Ningum pode ensin-la ?- declarou Jane. -  muito estpida,
coitada! Alm do mais, voc no  o tipo de pessoa para se empregar como
governanta.  uma verdadeira dama, como sua me. Lara riu. - Ser uma
"verdadeira dama" no d dinheiro, nem me permite ir a bailes cheia de
jias, ou mesmo ficar na "sala de visita" ao lado do marqus ou de lorde
Magor. Percebeu que Jane estremeceu ao ouvir o nome de Magor. Continuou:
- Creio que poderei lidar com ele mais eficazmente do que voc. Para
dizer a verdade, pretendo dar-lhe uma lio da qual jamais se esquecer.
- Oh, Lara, voc no deve aproximar-se dele! No permitirei que o faa.
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CAPTULO II

No caminho para Park Lane, de carruagem, Lara reconheceu que estava um
tanto nervosa.
Ao mesmo tempo, sentia-se convicta de que conseguiria escrever o seu
livro se conhecesse o ambiente autntico de uma manso aristocrtica e um
vilo de carne e osso.
Jane acabara consentindo em que ela tomasse o seu lugar, embora
continuasse protestando com medo de lorde Magor.
- No vo querer que voc tome conta da menina, se estiver com sarampo -
observou Lara. - E, se quiserem se arranjar sem uma governanta, voltarei
para casa. O que poderemos perder em arriscar?
Isto era indiscutvel. Pouco a pouco, Lara conseguiu convencer a amiga a
ficar descansando naquele perodo, at a situao se resolver. Foi mais
difcil convencer Nanny.
- Nunca vi uma coisa igual! Ir sozinha para uma casa estranha! exclamou a
velha empregada.
- No vou como visita - argumentou Lara. - Estarei segura, trabalhando no
lugar de Jane.
Antes de contar a Nanny, fez Jane jurar que no mencionaria nada sobre
lorde Magor.
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voc conhece Nanny. Ela teria um ataque se soubesse que ele a
perturbou. Imaginar logo o que faria a mim!
Sei disto - concordou Jane, infeliz. - E no devia permitir que
voc tomasse o meu lugar, Lara. Afinal de contas, sou mais velha do que 
voc e deveria saber tomar conta de mim mesma.
Estava a uma coisa que Jane no sabia fazer: tomar conta de si prpria. 
Lara estava decidida; j que lorde Magor se comportara de maneira to 
atroz, ia assust-lo, como ele fizera com a pobre Jane.
Enquanto Lara arrumava a mala, Nanny protestava o tempo todo. Finalmente 
a moa foi at o quarto do pai e abriu o armrio.
Havia ali muitas coisas que tinham pertencido ao pai dele e que o pastor 
tirara da casa da famlia, antes de vend-la. Miniaturas dos avs Hurley, 
desenhos feitos pela me de Lara e um par de pistolas de duelo, muito 
antigas.
Quando as trouxe para a casa paroquial, o pai de Lara mostrou-as  
famlia, com orgulho, dizendo que tinham sido usadas por seu av, num 
duelo no reinado de Jorge IV.
No foi preciso mais para que a imaginao de Lara criasse asas e 
inventasse histrias emocionantes sobre seu bisav. Assim convenceu o 
pai, que lhe ensinou a atirar com as pistolas.
No querendo matar nenhum animal, ela fez um alvo de papelo, prendeu-o 
numa rvore do jardim e seu pai comeou a lhe ensinar o manejo das armas. 
Quando conseguiu acertar a marca do centro vrias vezes, o pai lhe falou 
que poderia considerar-se uma boa atiradora.
- No que voc v participar de algum duelo, querida, mas  bom que uma 
mulher aprenda a se defender.
- De quem, papai? - perguntou Lara.
- Creio que a resposta : de ladres e bandidos - respondeu o pai, aps 
uma ligeira hesitao.
- Mesmo que Jane tivesse uma pistola, no teria coragem de ameaar lorde 
Magor com ela - murmurou consigo mesma.
Tinha tanta certeza de que Jane no saberia atirar com uma pistola, como 
de que ela prpria era capaz de facilmente acertar num homem.
Saber que as pistolas estavam em sua mala, escondidas no meio das roupas, 
a deixava mais tranquila.
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Apesar disto, sempre havia a hiptese de lorde Magor no sentir por ela o 
encanto que tinha por Jane.
Ao mesmo tempo, olhando-se no espelho reconheceu que seria muito estpida 
se ignorasse que era muito bonita.
Os Hurley tinham herdado sua bela aparncia de um antepassado bonito e 
valente, o primeiro lorde Hurlington. Desse modo, tanto as mulheres como 
os homens da famlia eram verdadeiramente belos.
Muitas das mulheres que frequentavam a igreja de Little Fladbury iam ali, 
na opinio de Lara, s para admirar seu pai, que ficava muito atraente 
quando paramentado.
Indubitavelmente, elas ficavam atentas e extasiadas, quando ele pregava
seus sermes longos e maantes.
Ningum poderia dizer que a me de Lara no fora bonita. Dela, a moa 
herdara os cabelos de um ruivo dourado que,  luz do sol ou de 
candelabros, punham uma aurola  volta de seu rosto.
- Se eu tivesse olhos verdes, ficaria parecendo uma sereia, ou ento a 
vil, num romance - pensou.
A vil era sempre descrita como tendo cabelo vermelho, olhos verdes e um 
corpo sinuoso como o de uma serpente.
Mas os olhos de Lara eram cinzentos, com manchas douradas.
Agora, no espelho, parecia muito moa e um tanto assustada com o que ia 
fazer.
- Preciso me lembrar de que se supe qu eu tenha vinte e trs ou vinte e 
quatro anos - murmurou para si mesma. - Do contrrio, vo achar que sou 
moa demais para ensinar, seja l a quem for.
Lara tinha escrito uma carta de referncia, caso algum lhe pedisse uma, 
assinando-a com o nome de seu pai.
Jane achou que isto no seria provvel, j que ela ia trabalhar 
temporariamente. Ningum indagaria muito de sua vida.
- Estou nervosa, apesar de tudo - acrescentou Jane. - Se indagarem muito
a seu respeito, podero descobrir quem voc .
- Sabe to bem quanto eu que ningum jamais ouviu falar deste lugar
perdido - observou Lara. - A gente de sociedade no sabe da existncia de
papai, e muito menos da minha.
Jane sabia que isto era verdade.
por favor, Lara, tenha cuidado. Suponhamos... suponhamos apenas
que lorde Magor a machuque? Eu nunca me perdoaria.
Machucar-me? Como poderia? Voc disse que ele tentou beij-la,
Jane Reconheo que deve ter sido horrvel, mas  pouco provvel que me
derrube ou bata em mim.
Jane no respondeu. Lara teve a impresso de que ela estava refletindo 
sobre alguma coisa.
Como se procurasse convencer-se a si mesma, Jane disse:
- Creio que vai dar tudo certo, mas se voc ficar com medo dele deve 
voltar correndo para casa.
- Prometo que o farei - disse Lara. - Mas, pelo amor de Deus, no diga 
nada a papai, nem a Nanny, ou eles iro no dia seguinte me buscar.
- Vou ter muito cuidado - prometeu Jane. - Mas eu devia procurar impedi-
la de fazer isto, embora saiba que voc est apenas querendo me ajudar.
- Acontece que estou sendo muito egosta, querendo conhecer o ambiente 
apropriado para o meu romance - declarou Lara. - Oh, Jane, se o livro for 
um sucesso voc ter participao nos lucros, pois graas a voc o 
ambiente ser autntico.
Lara tinha colocado o manuscrito na mala.
Terei tempo de escrever  noite, quando a menina estiver dormindo, pensou 
ela. Tomarei nota de tudo o que acontecer.
Queria que Jane contasse mais a respeito das festas de Keyston Park, mas 
admitiu que era mais importante saber sobre o trabalho na casa e as aulas 
de Georgina.
- A menina  realmente estpida - contou Jane. - No sei como isto pde 
acontecer, pois a famlia Keyston  conhecida como tendo estadistas 
inteligentes e homens que se distinguiram como bons soldados.
- H algum livro com a histria da famlia? - perguntou Lara.
Deve haver, na biblioteca, mas nunca tive tempo de ler nada a esse 
respeito. Todos os dias, aps as lies, ponho Georgina na cama e arrumo 
a sala de estudo. Ento fico com um medo horrvel de que lorde Magor 
aparea, e assim no consigo concentrar-me em livro algum.
Lara no pde deixar de pensar que Jane estava pintando sua situao com
cores ainda mais negras do que ela teria na realidade.
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Afinal de contas ele  apenas um homem, pensou Lara. E por que ele
haveria de machuc-la? Essa possibilidade, aventada por Jane, a deixava
um tanto perplexa. Decidida a fazer as coisas da melhor maneira, Lara
quis saber de Jane mais informaes sobre a irascvel bab de Georgina.
- Como se chama a tal bab? - Nesbit - respondeu Jane. - Srta. Nesbit. -
Devo pedir para falar com ela, quando chegar em Londres, ou h um
secretrio, como o de Priory, com quem devo falar primeiro? -
Atualmente, o sr. Simpson est em Priory, porque o marqus se encontra
l - respondeu Jane. - Ento, o melhor que tenho a fazer  explicar a
Georgina o que aconteceu. - Espero que isto seja o certo... Creio que
sim... Oh, meu Deus, gostaria que voc... no fizesse isto - gaguejou
Jane. - No podemos discutir tudo de novo - declarou Lara. - E creio
estar ouvindo Jacobs l fora com a carreta, de modo que  melhor eu
partir. O pai de Lara tinha ido a uma cidade vizinha, utilizando o trole
puxado por Rollo. Assim, o fiel Jacobs foi encarregado de levar a mala
de Lara na carreta, at a  estao. Apenas Jane, Nanny e Jacobs sabiam
de sua partida, de modo que Lara no precisou perder tempo com
explicaes. Alis, ela no se sentia capaz de justificar  aquela
deciso que aos outros s pareceria excntrica. Logo chegaram  pequena
estao. Ali no havia nenhum empregado permanente. Quando algum queria
ir a Londres, ou a alguma outra parte de Essex, tinha que manipular
sozinho o sinal para o trem parar. Jacobs empurrou a carreta para a
plataforma, soltando um suspiro de alvio. Tirou um leno sujo do bolso
da cala de veludo e enxugou a testa molhada. - Foi uma boa caminhada,
srta. Lara - disse ele. - Fico-lhe muito grata, Jacobs. Quer fazer o
favor de acionar o sinal para mim? Jacobs obedeceu. No demorou mais que
alguns minutos para verem surgir a fumaa da chamin do trem, ao longe.
28 O trem parou com um forte barulho ao lado da plataforma. O guarda
desceu, pegou a mala de Lara e levou para o compartimento das bagagens.
Depois indicou  moa um vago onde se lia "S para Damas". O maquinista
recolocou o sinal em seu lugar anterior e o trem partiu. Lara
debruou-se na janela para dizer adeus a Jacobs mas o velho j estava
empurrando a carreta para fora da plataforma. -  uma verdadeira
aventura - murmurou baixinho, para si mesma. Mais tarde, quando a
carruagem de aluguel parou diante de Keyston House, em Park Lane, ela
pensou a mesma coisa. A casa era impressionante, com um belo prtico e
cercada por um muro alto. Deve ser bom ter tanto dinheiro, uma manso no
campo e outra casa em Londres, pensou ela. O cocheiro desceu para tocar
a campainha. A porta se abriu quase imediatamente. Surgiu um lacaio com
uma bela libr azul-marinho e amarela, com grandes botes prateados com
a marca da coroa do marqus. O cocheiro tirou a mala da carruagem. Lara
notou que o lacaio estava surpreso com a visita inesperada. Ela subiu os
dois degraus de mrmore que levavam  porta de entrada. - Desejo falar
com a srta. Nesbit. Faa o favor de colocar minha mala no saguo, at eu
falar com ela. Embora no o percebesse, Lara falou num tom autoritrio e
o lacaio obedeceu respeitosamente. - Vou avisar a srta. Nesbit, minha
senhora. - Obrigada. O lacaio levou-a atravs do saguo e a introduziu
numa saleta mobiliada com mveis franceses e ostentando nas paredes
quadros muito valiosos. Enquanto esperava, examinou os quadros,
verificando o nome dos autores. Calculou que o preo de um s deles
daria para que ela e o pai vivessem confortavelmente durante anos. Na
casa de sua famlia, que fora vendida, havia muitos quadros, mas no to
valiosos como estes aqui. Lady Hurlington muitas vezes dissera a Lara:
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-  tolice a gente se lamentar, mas sempre desejei que voc soubesse o que
 viver numa casa grande com uma poro de criados, querida Como
aconteceu comigo, em menina.
Suspirou e prosseguiu:
- Gostaria que voc fosse a jantares, bailes em sales iluminados pr
lustres de cristal, ao som de uma orquestra de violinos.
- Deve ter sido muito romntico, mame.
- E era, mas no to romntico como me apaixonar por seu pai viver numa
modesta casa paroquial e ser muito, muito feliz.
No havia necessidade de perguntar se sua me lamentava ter renunciado 
vida que tivera em menina.
"Fico imaginando se algum dia terei chance de ter o que mam perdeu,
quando casou com papai, e o que todos ns perdemos por vov ter sido to
extravagante", pensou Lara.
A porta se abriu e o lacaio voltou.
- A srta. Nesbit pediu para que suba, senhora, porque ela no pode
deixar lady Georgina.
Lara seguiu-o por uma bela escada entalhada, indo at o primeif andar.
Depois o lacaio afastou a cortina verde de uma porta que dava, para outra
menos imponente que levava ao segundo andar. Havia a inmeras portas,
provavelmente dos quartos principais da casa.
Caminharam por um longo corredor. Chegando ao fim, o lacaio bateu numa
porta que foi aberta pela mulher que devia ser a bab de Georgina.
Era quase uma cpia da bab de Lara, de vestido cinzento, gola branca
engomada, e uma faixa larga na cintura, presa por uma fivela prateada.
Os punhos eram engomados, com botes de madreprola. Os cabelos grisalhos
estavam puxados para trs, num penteado severo; o rosto era enrugado, mas
de expresso bondosa.
Ela tinha um queixo firme, que indicava uma pessoa decidida habituada a
dar ordens e a ser obedecida.
Olhou para Lara com um ar surpreso e perguntou:
- Deseja falar comigo?
- Trouxe um recado da srta. Jane Cooper.
Nanny nada disse por um momento. O lacaio retirou-se. Lara continuou:
Preciso explicar-lhe certas coisas. Posso entrar?
Disse que traz um recado da srta. Cooper? - perguntou a bab, um
tanto desconfiada.
- Isto mesmo - respondeu Lara.
A bab abriu a porta com certa relutncia.
Entre, mas no fale muito alto. Lady Georgina est dormindo.
Esteve inquieta o dia todo e dormir  a melhor coisa que lhe podia
acontecer. No quero que acorde.
A srta. Cooper disse que ela teve um abcesso no dente.
- Foi o que o dentista falou - respondeu a srta. Nesbit, como se
estivesse pronta a discordar.
Lara entrou numa saleta confortvel. Calculou que no era a sala de
estudo e sim o boudoir de um quarto de hspede.
-  melhor sentar-se - disse Nanny.
Lara sentou-se num sof de chintz brilhante e florido. A bab instalou-se
numa cadeira diante dela.
- Muito bem. O que aconteceu?
- Infelizmente, creio que vai ficar aborrecida com as notcias.
- O que aconteceu? - perguntou a bab, novamente.
- Moro no campo e a srta. Cooper foi me visitar - respondeu Lara.
- No me pareceu bem. Para dizer a verdade, depois do almoo pedi ao
mdico que a examinasse. Ele tem quase certeza de que Jane est com
sarampo.
- Sarampo? - exclamou a mulher, assustada. Antes que Lara dissesse alguma
coisa, a bab falou:
- No tem importncia. Lady Georgina j teve sarampo.
- Oh, que bom! A srta. Cooper estava com medo de ter contagiado a menina.
" Seja como for, h muita gente em Priory que no teve sarampo, inclusive
duas crianas que cuidam da sala de estudo.
- Isto tambm preocupa a srta. Cooper - declarou Lara.
Refletiu que fora muito viva, mudando sua histria depois de saber que i
Georgina j tivera sarampo.
Obviamente, Jane no sabia disto, mas no tinha importncia, porque,
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estando supostamente doente, no poderia trabalhar durante duas ou trs
semanas. - Lamento - disse a bab. - Sempre achei que  melhor a gente
ter essas doenas em criana. Sofre-se mais quando se  adulto. - Foi o
que o mdico disse - contou Lara. - A srta. Cooper achou que a nica
coisa que podia fazer era mandar algum para substitu-la
provisoriamente. Percebeu que a mulher se contraa. Mas, antes que ela
dissesse alguma coisa, Lara continuou: - Deixei um emprego, porque minha
aluna no tinha mais idade para precisar de governanta. Como a srta.
Cooper no deseja causar transtornos, eu disse que teria prazer em vir
dar aulas a lady Georgina, at a completa recuperao da srta. Cooper. A
bab parecia em dvida. - Francamente, no sei o que dizer. No seria
mau para a menina ter um descanso dos estudos. Lara esperava por isto e
sorriu. - Tenho certeza de que ela prefere ficar com a senhora, mas a
srta. Cooper no deseja que fique sobrecarregada, em vista do trabalho
que a senhora j tem. Ento, se eu puder distrair a menina por uma hora
ou mais, por dia, creio que tudo ficaria mais fcil para a senhora.
Percebeu que a srta. Nesbit ficou surpresa com esta atitude de Lara.
Dali a um momento, a mulher disse, quase com m vontade: - bom, j que
est aqui e  amiga da srta. Cooper, creio que  melhor ficar, pelo
menos esta noite. -  muita bondade sua - respondeu Lara. - Se no me
aceitasse, no sei o que faria. Duvido que haja um trem que me leve de
volta a esta hora. - Suponho que a srta. Cooper tenha ido visit-la. Ela
me contou que ia ver uns amigos. -  verdade. Eu estava em casa de lorde
Hurlington, pois era  filha dele que eu estava ensinando. O pai da
srta. Cooper morava na mesma aldeia, antes de morrer. Lara achou que a
bab ficou impressionada ao ouvir o nome de lorde Hurlington.
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- Como voc se chama? - Wade. Lara Wade. ? Escolheu este nome porque lhe
parecia distinto. Existira uma solteirona chamada Wade, em Little
Fladbury, que ensinava na escola dominical. - Pois bem, srta. Wade, deve
compreender que no depende de mim voc ficar aqui at a srta. Cooper
melhorar - disse a bab de modo um tanto brusco. - Quem decide   o
marqus, ou antes, o seu secretrio, o sr. Simpson, que  o responsvel
pelos empregados. Voc o ver, quando voltarmos para Priory, amanh. -
Espero que ele me deixe ajud-la. Alm do mais estou com vontade de
conhecer Priory, depois de tudo o que a srta. Cooper me contou. - Creio
que ela admira a propriedade, como todo mundo, alis comentou a bab,
sem demonstrar o menor entusiasmo. - Creio que a srta. Cooper acha que
teve muita sorte em trabalhar numa manso histrica, com uma pessoa que
foi to boa para ela como a senhora. Ao dizer isto, tinha quase certeza
de que no era verdade e que provavelmente a mulher se mostrara ciumenta
e difcil. Mas sua me sempre lhe dizia: - Voc deve sempre elogiar as
pessoas, atribuindo-lhes qualidades que elas no tm, para que fiquem
envergonhadas e procurem modificar-se. Lara rira. - Quer dizer que, se a
gente disser a um avarento que  generoso e a um homem cruel que ele 
bom, eles mudaro?
 - Exatamente! - exclamou lady Hurlington. - s vezes, apenas algumas
vezes, vi que d certo! Lara sorrira novamente. Agora, percebeu que a
bab ficou satisfeita e relaxou um pouco. - Como est quase na hora da
ceia, srta. Wade, creio que gostaria de tirar o chapu e lavar as mos.
Disse isto quase como se Lara fosse uma criana que precisasse ser
repreendida. Puxou com fora o cordo da campainha que pendia do teto.
Lara compreendeu, feliz, que havia vencido! Conseguira atravessar a
soleira da porta e ser aceita. Comeou a imaginar como isto iria
melhorar o terceiro captulo de seu livro... 
33

Quando Lara conheceu Georgina, no dia seguinte, viu que era exatamente
como Jane a descrevera. Era uma menina bonita, mas aptica, no
parecendo interessar-se pelo que se passava  sua volta. A bab levou
Lara ao quarto onde a menina tomava o desjejum, na cama. Explicou que a
srta. Cooper estava doente e que uma outra viera substitu-la at ela
melhorar. Mas isto no despertou a curiosidade de Georgina, que
continuou tomando  o seu desjejum. Quando terminou, a menina disse: -
No quero mais saber de lies! Detesto verbos! - Eu tambm - concordou
Lara. - Levei muito tempo para decor-los. Georgina nada disse e Lara
continuou: - Antes de comearmos as lies, espero que voc me mostre
sua bela casa, para onde vamos hoje. Estou ansiosa para conhec-la. - 
muito grande - comentou Georgina, como se isto fosse uma desvantagem. -
Moro numa casa muito pequena, de modo que vou achar uma casa grande
muito excitante. Mas voc precisa cuidar de mim, para que eu no me
perca. Houve um rpido brilho de interesse no olhar da menina. - Ningum
se perde em Priory. As criadas tm medo de andar l,  noite, pensando
que talvez possam encontrar o fantasma. - H um fantasma, l? - exclamou
Lara. - Que excitante! Fale-me sobre ele. - Chega deste tipo de conversa
- interveio a srta. Nesbit, secamente. - Voc sabe to bem quanto eu que
Nelly e Bessie ficam amedrontadas e so capazes de sair por a gritando
que viram a Dama Branca, o Monge Negro ou tolices deste  gnero. - J
viu algum fantasma? - perguntou Lara. - Se h algum rondando pelos
corredores  noite, no so fantasmas! - respondeu a bab, secamente. Em
seguida, como que arrependida por ter falado demais, saiu do quarto,
deixando Lara sozinha com Georgina. 
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- Nelly tem pavor de fantasmas - disse a menina, em voz baixa. Certa vez
eu me enrolei num lenol e disse: "Bum!", quando Nelly entrou no quarto.
Ela deu um grito  e derrubou a bandeja. A bab ficou muito zangada. Lara
riu. - No me surpreendo. Quando as pessoas ficam com medo, fazem as
coisas mais tolas deste mundo. - Talvez voc fique com medo, quando
chegar em Priory - disse a menina. - Espero que no. E eu no gritaria,
mesmo que visse um fantasma. - Muita gente tem medo do tio Ulric - disse
Georgina, impulsivamente. Lara sups que se tratasse do marqus e
perguntou: - Por qu? - Porque ele  assustador. Depois, como se no
quisesse responder a mais perguntas, disse: - Quero levantar. Diga 
bab que quero levantar. - Sim,  claro. Lara levantou-se e abriu a
porta. A bab estava na saleta, recolhendo uma poro de objetos
espalhados. - Georgina quer levantar - disse Lara, ficando a imaginar se
seria certo falar da menina sem usar seu ttulo de nobreza. - E por
favor, deixe que eu a ajude, srta.  Nesbit. A mulher pareceu surpresa
com este oferecimento. Depois, entregou a Lara os objetos que tinha na
mo, explicando: - Coloque isto na mala, ali no canto. Vou cuidar da
menina. Lara colocou os objetos na mala grande, de um couro muito
valioso. Era outra prova de riqueza. Lara pensou, com ironia, que iria
parecer uma mendiga, quando chegasse a Priory. Tinha mesmo tanta
vergonha de seu chapu velho, que pedira a Jane que lhe emprestasse o
seu. Era de palha ordinria, enfeitado com fitas azuis que combinavam
com os olhos de Jane, mas estava em bom estado. Ao coloc-lo na cabea,
Lara achou que ficava um tanto teatral com o 
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cabelo ruivo. Mas a verdade  que ela no poderia aparecer no emprego
com seu chapu fora de moda e caindo aos pedaos. - Pode levar o que
quiser, mas receio que minhas roupas no sejam muito elegantes - disse
Jane. - com certeza vou ficar morta de inveja, quando vir os vestidos
das convidadas do marqus - observou Lara. - So fantsticos - disse
Jane -, custam verdadeiras fortunas. E algumas das beldades de Londres
usam seus vestidos s uma vez! - O que acontece com eles, depois? -
perguntou Lara. - So dados s empregadas, que os vendem. - Que
esquisito! - Oh, no! Isto  muito comum entre as elegantes da alta
sociedade - comentou Jane. - Muitas vezes pensei que, se eu tivesse
dinheiro, compraria meus vestidos desse jeito. Mas voc sabe que preciso
economizar cada nquel. - Sim,  claro - concordou Lara. Ao mesmo tempo,
esperava que Jane tivesse alguma coisa que ela pudesse usar, para no
aparecer to mal vestida com suas roupas velhas e pudas. - Como voc
vai ficar no meu quarto, encontrar tudo l. Se quiser, posso lhe
emprestar tambm este vestido que estou usando. Como Lara achava este
vestido muito feio, preferiu usar um dos que pertenceram  sua me.
Tendo um corpo perfeito e a cintura fina, Lara ficou elegante, embora o
vestido fosse velho. Depois colocou nos ombros uma capa leve. Apesar de
tudo, quando se viu na carruagem do marqus, puxada por quatro cavalos
magnficos, Lara constatou que, mesmo ao lado de Georgina, ela parecia
deslocada. O vestido de Georgina era de musselina leve-, enfeitado com
rendas. A menina usava um casaco de cetim, com punhos de arminho. Era
justamente o que Lara sonhara para sua herona. Achou que era uma pena
Georgina ser to jovem, seno poderia fazer o papel de herona de seu
romance. Tomou nota, mentalmente, da maneira solcita com que o lacaio
de cartola colocou a manta nos joelhos dela, o jeito respeitoso com que
o 
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mordomo e quatro lacaios os acompanharam at a porta de Keyston House. A
bab insistiu para que Lara se sentasse ao lado de Georgina e ela ficou
no outro banco, de frente para as duas. - Creio que, como sou uma
estranha, Georgina prefere que a senhora sente-se ao lado dela - disse
Lara. Percebeu que a deixara satisfeita com a sugesto. Mas a velha
respondeu: - Voc  que deve sentar-se a e no pretendo discutir sobre
isto! - Muito bem. Mas estou pronta a mudar de lugar quando a senhora
quiser, durante a viagem. Percebeu que seus modos respeitosos e a
lisonja que empregava to habilmente com a velha estavam surtindo
efeito. Lara calculou que, no passado, as governantas de Georgina tinham
procurado se impor  velha senhora, de modo que ela ficou na defensiva.
- Se eu quiser ficar, terei que tratar todo mundo deste jeito - disse a
si mesma. Procurou distrair Georgina, contando-lhe histrias de sua
infncia, a maioria inventadas, percebendo que a bab escutava com
ateno. Teve cuidado para no dizer nada que tornasse suspeita a sua
presena ali. Georgina estava cansada, quando finalmente atingiram os
portes de ferro forjado de Priory. - Agora vai para a cama, milady.
Nada de ficar zanzando. Do contrrio no haver passeio a cavalo,
amanh. - A velha falou, com autoridade. - Amanh vou sair a cavalo -
declarou Georgina, com uma nota de firmeza que no houvera antes em sua
voz. - Snowball deve ter sentido a minha falta. - Est certo. Se voc
dormir bem, falaremos sobre isto amanh prometeu a bab. Lara percebeu
que Georgina estava emburrada, mas de repente seus olhos brilharam ao
falar de Snowball. Bem, j podia ver que a menina gostava de montar.
Lara ficou animada ao pensar que, se Georgina sasse a cavalo,
provavelmente ela a acompanharia.
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Quando Rollo era um potro, Lara o montava todos os dias. Mas agora  o
 cavalo estava velho e seria uma crueldade mont-lo.
Como a casa paroquial ficava longe de tudo, Lara gostaria de poder montar
todos os dias, em vez de caminhar pelos campos ou pela para ir  aldeia.
Quando Rollo era um potro, Lara o montava todos os dias. Mas ag0t; rvpois
de ter vindo de to longe, havia o perigo de ser mandada de cavalo estava
velho e seria uma crueldade mont-lo. para casa imediatamente, pois o sr.
Simpson ou mesmo o prprio
Como a casa paroquial ficava longe de tudo, Lara gostaria de p, us 
poderiam no achar que ela fosse necessria, montar todos os dias, em vez 
de caminhar pelos campos ou pela por favor, meu Deus, fazei com que eu 
fique! rezou Lara. para ir  aldeia. Ainda rezava quando desceu da
carruagem e subiu a escada, atrs de
Nessas ocasies, imaginava estar cavalgando um garanho grande fieorgina,
passando pela imensa porta de carvalho, onde se via no alto o negro, ou
um unicrme branco como a neve. braso da famlia.
- Graas a Deus, chegamos! - exclamou a mulher.
Olhando para a grande alameda de carvalhos, Lara ficou de respirao
suspensa.
Tivera tanta coisa para perguntar a Jane sobre o interior da casa para
no cometer nenhum engano, que esquecera de indagar como era por fora.
Agora, ao v-la brilhando como uma jia ao sol da tarde, achou que a casa
era a  mais linda que j vira na vida.
Percebeu imediatamente que era elisabetana e devia ter sido um convento,
antes da dissoluo dos mosteiros.
As paredes eram de tijolinhos vermelhos, mas j de um tom rosa claro
adquirido no decorrer dos sculos, com o formato em "E", homenagem
 rainha Elizabeth. Os telhados em espigo e as chamins ali delineavam-se
contra o cu. Mais bela do que qualquer casa com a qal Lara pudesse ter
sonhado...
Na frente, havia um riacho com uma ponte, construda na mesma poca da
casa.
Os gramados verdes pareciam veludo; nos lados da casa, os arbustos
comeavam a florir.
Nas margens do riacho havia amendoeiras e rannculos que desciam at a gua.
-  lindo! Lindo! - exclamou Lara, sem perceber que falara em voz alta.
-  bastante bonito - concedeu a srta. Nesbit, de m vontade. Mas, como
j disse muitas vezes, no h nada perfeito neste mundo.
Este modo de falar era to semelhante ao da bab de Lara, que ela no pde
deixar de rir.
Vendo que a bab lhe lanava um olhar agudo, lembrou que era este momento
cruciante.
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39

CAPITULO III

Lara olhou para a sala de aula, achando-a muito confortvel e luxuosa,
mas ao mesmo tempo mal arrumada. Sempre tivera um bom olho para
decorao. Sabia que, se ficasse bastante tempo aqui, teria que mudar a
disposio do sof e das mesas para tornar a sala mais atraente. Mas
precisava ter muita cautela e nada disse, no momento. O sr. Simpson
aceitou sem muitos comentrios a explicao que a moa lhe deu sobre a
ausncia de Jane. - Lamento saber que a srta. Cooper est indisposta,
mas deu prova de muita considerao, mandando-a em seu lugar, srta.
Wade. - Somos velhas amigas - respondeu Lara. - E eu trouxe uma carta de
referncia, caso o senhor julgue necessrio. Entregou a carta ao sr.
Simpson, que a leu sem muita ateno. Lara a escreveu e assinara em nome
de seu pai. Dizia que ela tinha sido uma tima governanta para sua filha
e a recomendava com prazer para um posto semelhante. O sr. Simpson
devolveu a carta, dizendo: - Espero que consiga com que lady Georgina d
mais ateno aos estudos do que at agora. Todas as governantas que
tivemos dizem a
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mesma coisa: que ela acha as lies maantes e no consegue
concentrar-se. Lara sorriu. - Creio que todas as crianas passam por
esta fase. Parece-me que o maior interesse de lady Georgina  a
equitao. -  verdade - concordou o sr. Simpson. - Seu pai era um
excelente cavaleiro e o mesmo acontece com seu tio. - Vocs tm muita
sorte em possuir to bons cavalos - disse Lara, em voz suave. Rezou para
que o sr. Simpson percebesse o que ela estava insinuando. Dali a um
momento, ele falou, com um sorriso: - Tenho a impresso, srta. Wade, de
que gostaria tambm de montar. Lara soltou uma exclamao.  - 
possvel? Nem sei dizer o quanto isto seria maravilhoso para mim! Minha
vida foi um tanto restrita, nos ltimos anos, pois lorde Hurlington no
estava em condies de manter muitos cavalos. Simpson pareceu surpreso.
- Creio que, como lorde Hurlington  pastor, isto  compreensvel -
disse, dali a um momento. - Creio que o senhor sabe que os pastores, em
geral, so muito mal pagos - argumentou. Simpson riu. - Concordo
plenamente, srta. Wade, porque meu pai era um deles. Lara comeou a crer
que encontrara um aliado onde menos esperava. - Deve compreender ento
como seria maravilhoso para mim, enquanto estiver aqui, poder montar em
companhia de Georgina. - Vou dar ordem na cocheira para que a acompanhe,
senhorita, sempre que ela montar o seu pnei. - Obrigada, muito obrigada
- exclamou Lara. - Agora sinto realmente que fao parte de um conto de
fadas. Esta sensao se acentuou quando ela subiu at a confortvel
sute reservada a Georgina e a sua governanta. O quarto da menina era
sensacional. O de Lara, embora no to grande, parecia um quarto de
sonhos.
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Na realidade, a casa inteira era diferente de qualquer coisa que  jamais
vira.
No dia seguinte, ao acordar, resolveu que iria ver tudo o que pudesse em
Priory.
Georgina ainda se dizia cansada e, como o dia estava cinzento ameaando 
chuva, a bab no permitiu que ela fosse andar a cavalo.
Lara descobriu que era tambm a velha empregada quem acordava Georgina de
manh, quem a vestia e a levava at a sala de aula parl tomar o
desjejum. Depois, ia para o seu quarto, num outro andar.
Isto explicava por que a bab no ouvia nada, quando lorde Mago vinha
visitar Jane, na sala de aula.
Agora viu que esta sala ficava no andar abaixo do antigo quarto das
crianas. A sute que ela e Georgina ocupavam ficava isolada, tanto dos
quartos grandes da casa, como do antigo quarto das crianas e das
dependncias dos empregados.
 um caso parecido com o de estar entre a cozinha e a sala de visita -
pensou Lara, sorrindo.
Mas estava ocupada demais para pensar em lorde Magor ou no marqus.
Queria dedicar-se a conhecer melhor Georgina.
Sabendo que no poderia sair a cavalo, a menina ficou emburrada durante o
desjejum. Quando este terminou, ela olhou para Lara. apreensiva, como se
esperasse ouvir que estava na hora de estudar, o que ela detestava.
- O que  que voc gostaria de fazer? - perguntou Lara. Sabia qual era a
resposta e, para evit-la, acrescentou, vivamente:
- A srta. Nesbit disse que voc no pode andar a cavalo hoje, e isto 
decepcionante tanto para voc como para mim. Estou ansiosa para montarmos
juntas. No imagina como fico excitada com essa perspectiva.
Georgina pareceu surpresa. 
- Sabe montar, srta. Wade? Nenhuma de minhas outras governantas jamais
quis montar. Sempre preferiram andar de charrete.
- Claro que vou montar - declarou Lara. - E vamos apostar corrida. Eu lhe 
darei uma distncia de vantagem, porque estar montando um pnei. Mas
tenho certeza de que Snowball  veloz, embora numca o tenha visto.
- Muito, muito veloz - respondeu Georgina, vaidosamente. - E eu
gostaria de apostar com voc. Deve ser divertido!
- Muito bem.  o que vamos fazer, amanh, mas hoje vamos nos divertir e
no pensar em lies chatas.
Notou que os olhos da menina se iluminavam. Acrescentou:
- Acho que voc  que deve me dar uma lio, mostrando-me a casa. Isto ,
se o seu tio estiver ausente e no formos incomodar ningum.
- Tio Ulric deve ter sado a cavalo - respondeu a menina. Sempre sai a 
cavalo, de manh.
E os amigos dele?
- Se houver algumas senhoras hospedadas aqui, estaro ainda na
cama.
- Ento, talvez possamos ver os quartos que esto desocupados sugeriu 
Lara.
Percebeu que havia uma poro de enredos girando em sua mente, as cenas 
passando-se em Priory.
Quando desceu com Georgina, pensou em como devia ser grata ao destino, 
ou, antes, a Jane, que lhe dera a oportunidade de conhecer justamente o 
tipo de casa apropriada para o seu romance.
Estiveram no hall principal, onde Lara calculou que houvesse uma poro 
de lacaios de servio.
Georgina levou-a por outra escada, que dava num vasto corredor, repleto 
de armaduras e retratos de priores que tinham dirigido o mosteiro, antes
que fosse fechado por ordem de Henrique VIII.
Lara gostaria de parar diante de cada um deles, mas Georgina a apressou, 
dizendo:
- Creio que, primeiro, voc gostaria de ver a estufa.  muito bonita e h 
ali alguns pssaros que tio Ulric trouxe de suas viagens de alm-mar.
Dizer que a estufa era bonita parecia modstia. Obviamente, fora 
acrescentada  casa quase um sculo depois desta ser construda. 
Entretanto parecia fundir-se com a construo original.
Mas o que deixou Lara de respirao suspensa foram as orqudeas.
Ela nunca tinha visto estas flores antes, mas j lera sobre elas. Agora, 
ao v-las de diversas cores e tamanhos, compreendeu que tambm iriam 
fazer parte de seu livro.
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Georgina no a deixou demorar diante das orqudeas lilases, nem daquelas
em forma de estrelas que pareciam ter cado do cu.
Na extremidade da estufa havia uma gaiola enorme de periquitos. Lar achou 
to fascinantes quanto as orqudeas.
- De vez em quando, venho aqui, aliment-los - disse Georgina. Mas a
srta. Cooper nunca me acompanha, porque tem medo de encontra tio Ulric e
aquele velho srdido, lorde Magor.
Lara ficou admirada por Georgina saber tanto.
- Por que diz que ele  srdido?
- Finge que vai  sala de aula para me ver, mas fica o tempo todo olhando
para a srta. Cooper. E ela tem medo dele.
Lara refletiu que as crianas sempre sabem mais do que a gente pensa Mas, 
achando que no devia alimentar este assunto, disse:
- Gosto destas aves e virei aqui com voc, sempre que me pedir. Georgina 
sorriu e alimentou as aves com os gros que estavam
guardados perto da gaiola. Depois disse:
- O que deseja ver, agora? A sala de armaduras ou a biblioteca?
- As duas coisas! - respondeu Lara. Georgina riu.
Enquanto seguiram adiante, contou  menina uma histria sobre orqudeas 
que ela conhecia; e inventou outra sobre um periquito que levava uma 
mensagem pedindo ajuda para uma menina que cara do alto de um penhasco.
- Ele foi muito inteligente! - exclamou Georgina.
- Claro que, durante algum tempo, a menina tinha ensinado a ave a fazer o 
que ela mandasse - disse Lara, vivamente. - Ele voava at o teto e, 
quando sua dona assobiava, descia e pousava no ombro dela.
- Acha que poderamos ensinar um dos periquitos de tio Ulric a fazer 
isto? - perguntou Georgina, ansiosa.
- Podemos tentar, mas talvez seja melhor voc ter um, s seu, na sala de 
aula. Depois, se ele se recusar a obedecer, poderemos lev-lo de novo 
para a gaiola.
- Prometa que vamos fazer isto - exclamou Georgina.
- Vou pedir permisso ao sr. Simpson - disse Lara.
Refletiu que, pelo menos, conseguira sacudir um pouco a apatia com que
Georgina parecia encarar a vida at agora.
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Foram para a biblioteca. Lara manteve presa a ateno da menina,
sugerindo que procurassem nas estantes um livro sobre pssaros.
O bibliotecrio, que era um velho de cabelo grisalho, ficou admirado com 
essa pergunta.
Lara explicou quem ela era. O velho disse:
- Lady Georgina raramente me faz uma visrta. Agora que me pede 
determinado livro, preciso ach-lo para ela.
- Garanto que o senhor tambm tem livros sobre corridas de cavalos disse 
Lara.
O velho sorriu.
- O marqus comprou todos os livros que existem sobre esse assunto. E 
posso mostrar-lhe algumas gravuras de cavalos, muito interessantes, 
comeando naturalmente com a raa rabe, que foi trazida para a 
Inglaterra.
Lara olhou para as estantes abarrotadas de livros. Havia uma escada para 
a pessoa alcanar as prateleiras mais altas.
- Nunca pensei que pudesse haver tantos livros num lugar s! exclamou. - 
Quero ler todos!
O bibliotecrio riu.
- Neste caso, srta. Wade, ter que ficar aqui duzentos ou trezentos anos!
- Estou disposta a fazer isto, contanto que me deixem ler todos os livros 
- replicou a moa.
Percebeu que Georgina estava ficando entediada e disse, vivamente:
- Por favor, d-nos um livro bonito sobre corridas de cavalos. Sei como 
os cavalos rabes vieram para a Inglaterra e gostaria de um livro sobre 
este assunto tambm. Assim lerei para lady Georgina.
O homem foi buscar os livros, entregou-os a Lara e disse a Georgina:
- Se voltar aqui,  tarde, milady, prometo que terei o livro sobre 
Pssaros, mas agora no sei bem onde possa estar.
Georgina nada disse. Quando saram, Lara levando seus preciosos livros, a 
menina se queixou:
- No quero um livro sobre pssaros; quero um pssaro para mim!
- Falarei com o sr. Simpson, assim que o encontrar - prometeu Lara. - Mas 
agora, por favor, mostre-me mais alguns aposentos desta Casa maravilhosa.
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Caminharam por um longo corredor. Depois, Georgina abriu uma porta e elas
se viram no hall principal.
Lara sabia que tinha sido ali onde, antigamente, os monges recebiam 
pessoas que vinham buscar ajuda, tanto espiritual quanto material.
Olhou para o teto alto, com vigas de madeira, para as janelas compridas,
para a lareira magnificamente entalhada e achou que estava vendo um trecho
da histria da Inglaterra.
Sentiu que penetrava no passado, que tinha uma gola franzida  volta do
pescoo e era uma sdita leal da rainha Elizabeth.
Achando que devia partilhar seus pensamentos com Georgina, comentou:
- Procure imaginar o que acontecia quando os monges viviam aqui, o prior,
que era um santo homem, os ensinava a ajudar e a alimentar pessoas que
apareciam  porta.
- Eles faziam isto? - perguntou a menina.
- Os mendigos nunca eram mandados embora. Quando o inverno era muito
rigoroso, no s os seres humanos tinham fome, como tambm os pssaros, os
veados, as lebres, os coelhos. Todos confiavam nos monges porque sabiam
que eles eram santos e no lhes fariam mal.
- Ento, por que no vm aqui, agora?
- Porque no  mais um lugar santo - respondeu Lara. - E e animais sabem 
disto, instintivamente.
Falou em tom suave, quase podendo ver os monges, como So Francisco,
cercado de pssaros e de animais. Teve um sobressalto ao ouvir uma voz
atrs dela.
- Est menosprezando os que vivem atualmente em Priory?
Lara virou-se e viu um homem encaminhar-se para elas. Ele havia entrado
por outra porta e Lara soube imediatamente que era o marqus.
Percebeu isto no apenas porque ele estava elegantemente vestido, culote 
branco e botas reluzentes, mas porque tinha ombros largos, um ar autoritrio
e era muito bonito.
Ao mesmo tempo Lara achou que ele podia ser assustador. com se tom de voz 
irnico, rugas que iam do nariz at os cantos da boca. marqus tinha um 
ar cnico.
- Oh,  voc, tio Ulric! - exclamou Georgina. - Pensei que tivesse sado a
cavalo.
Voltei, porque comeou a chover - respondeu o marqus. - bom
Georgina! Suponho que esteja tomando uma de suas lies; mas quem  a
professora?
Ao dizer isto, olhou para Lara, fazendo com que ela imediatamente tivesse
conscincia de que seu vestido era velho e surrado, e de que seu cabelo, 
em vez de estar penteado para trs, dando-lhe um ar respeitvel, caa em 
cachos na testa e nos lados do rosto, em desordem.
Achando que precisava explicar sua presena, Lara fez uma reverncia
e disse:
- Meu nome  Wade, milorde. Como a srta. Cooper est doente, vim
substitu-la, at ela ficar boa.
- Por que no me falaram sobre isto? - perguntou o marqus.
Lara achou que ele falou em tom duro, como se ficasse aborrecido quando 
alguma coisa acontecia em sua casa sem o seu conhecimento.
- Falei com o sr. Simpson, ontem, quando cheguei - respondeu Lara. - Ele 
achou que lady Georgina devia continuar seus estudos, que seria uma pena 
interromp-los:
O marqus ergueu as sobrancelhas. Lara ficou apavorada, achando que 
talvez ele a despedisse, justamente agora que ela se sentia segura! No 
suportando a ideia de sair de Priory antes de conhecer tudo o que achava 
importante ali, disse, impulsivamente:
- Por favor, milorde, permita que eu fique com lady Georgina. No apenas 
porque desejo ensin-la, mas tambm porque estou encantada com esta casa 
maravilhosa.
Achou que o marqus ficou surpreso.
- Mas, a julgar pelo que ouvi, no to encantada com o dono atual!
- No me atreveria a critic-lo pessoalmente, milorde - replicou Lara, 
vivamente. - Estava apenas tentando dar a lady Georgina uma ideia do que 
Priory deve ter sido, quando o mosteiro era habitado por aqueles que se 
dedicavam ao servio de Deus.
- E acha que uma vida de oraes  prefervel a viver no mundo, tal como 
, e fazer parte dele?
Lara nunca podia resistir a uma discusso. Sem perceber que seus olhos 
brilhavam, respondeu:
- Acho que  uma questo de a pessoa seguir a sua vocao, milorde.
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Embora eu admire muito aqueles que se dedicam ao servio de Deus,
confesso que desejo para mim uma vida mais ampla e mais aventurosa.
Infelizmente isto no  possvel, devido  minha escassez de recursos. O
marqus riu e Lara achou que era um som diferente do que ela tinha
esperado. - Sem dvida,  muito eloquente no assunto, srta. Wade. E
tenho certeza de que Georgina vai tirar proveito da sua sabedoria. Disse
isto em tom seco, que no soou exatamente como um elogio. - A srta. Wade
vai sair a cavalo comigo, tio Ulric - disse Georgina. de repente, como
se estivesse pensando s nisto. - E vamos apostar corrida. Pegamos na
biblioteca  uns livros para ler sobre corridas de cavalos. O marqus
pareceu surpreso. - Isto  certamente uma novidade - observou ele. - 
cavaleira, srta. Wade? - Espero que sim, milorde! Andei a cavalo a vida
inteira, mas, tambm a, mal posso comparar as montarias que tive com os
animais que espero encontrar em suas cocheiras. - No creio que v ficar
decepcionada. E acha que a equitao vai desenvolver a mente de
Georgina?  - Garanto que sim - respondeu Lara. - Ao mesmo tempo, isto
me dar um prazer sem limite, que no posso expressar por palavras. O
marqus sorriu. - Quando voc quiser apostar corrida, Georgina,  melhor
levar a srta. Wade para a pista. No esquea que os buracos de coelhos,
no parque, podem ser perigosos. - Vou me lembrar disto, tio Ulric. -
Terei interesse em conhecer seus progressos. Sem dizer mais nada, o
marqus virou as costas e saiu. A menina prendeu a respirao e depois
disse: - Voc no estava com medo de tio Ulric, de modo que eu tambm
no tive medo. Ele foi muito mais gentil do que  habitualmente. - 
sempre um erro ter medo de algum - disse Lara. Ao mesmo tempo no podia
deixar de sentir que encontrara um tufo. Por sorte, no ltimo momento,
ele passara ao lado, sem arrast-la. 
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Enquanto conversava com Georgina, seu corao cantava. O marqus no a
despedira. Ela ia poder montar os cavalos que, tinha certeza, eram os
melhores do pas. Como a manh estava adiantada, Lara preferiu no
encontrar nenhum dos hspedes. Assim, levou Georgina para a sala de
aula, onde examinaram os livros que tinham trazido  da biblioteca. O
almoo lhes foi servido l mesmo por dois lacaios. Sem dvida, era a
refeio mais deliciosa que Lara jamais provara na vida. Depois, a srta.
Nesbit entrou na  sala, afobada, dizendo estar na hora de Georgina fazer
o seu repouso. - Fizemos muitas coisas, hoje de manh, bab - disse a
menina. - Ento, quanto mais depressa voc for para a cama, melhor. Lara
achou que ela estava com cime, porque Georgina se divertira. Disse,
vivamente: - Por favor, diga-me quanto tempo ela vai repousar e se no
h mal em que eu d um passeio pelo parque. No quero fazer nada errado.
O fato de Lara pedir sua ajuda fez com que a bab ficasse de bom humor.
- No, no h mal nenhum, srta. Wade. Mas fique afastada dos gramados
diretamente sob as janelas, para no ser vista. Voc tem uma hora livre.
- Muito obrigada. Tem certeza de que nada posso fazer pela senhora? -
No, nada - respondeu a bab. Via-se que estava satisfeita com o
oferecimento de Lara. A moa foi para o seu quarto e pegou o chapu que
pertencia a Jane. Depois considerou que ningum iria v-la e resolveu ir
de cabea descoberta. A no ser que fizesse muito sol, ela nunca usava
chapu, quando estava em casa. Mas sabia que as damas se comportavam
corretamente e que, mesmo quando iam ao jardim,  cobriam a cabea e
usavam luvas. - Mas no sou uma dama - disse, com um sorriso. - Sou
apenas uma governanta; e quem se importa com o que fao? Olhou-se no
espelho e notou que, embora tivesse penteado os cabelos antes do almoo,
havia neles agora uns cachos rebeldes. Escovou-os rapidamente e comentou
consigo  mesma:
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- Oh, cus, como posso ter a aparncia correta, sria, apagada de uma
governanta se o que desejo  danar no gramado e voar para o cu? A
srta. Nesbit lhe dissera onde ficava a porta que dava para o jardim e
que a levaria  mata. Lara logo se viu no bosque que cercava a casa. A
maioria das rvores eram grandes carvalhos que deviam ter sido plantados
logo depois que Priory fora construda. Os galhos se abriam, protetores;
na relva, as prmulas comeavam a florescer. Era tudo to lindo, que
Lara se viu de novo dentro de um conto de fadas. Imaginou os gnomos que
se escondiam nas rvores e costumavam pregar peas nos outros habitantes
das florestas. Continuou caminhando, at chegar a um ponto mais alto.
Viu a casa l embaixo, o riacho e o parque. A chuva molhara a grama e as
folhas agora brilhavam ao sol. -  lindo! Como uma pessoa que mora aqui
pode deixar de ser feliz? - falou consigo mesma. Depois, lembrou-se das
rugas cnicas do rosto do marqus, do tom seco de sua voz e concluiu que
no era um homem feliz. Parecia olhar a vida com desinteresse e ach-la
maante. Garanto que  um homem difcil, pensou Lara. E compreendo que
Jane tenha medo dele. Ela, Lara, no precisava tem-lo, pois, quando
Jane voltasse, iria embora e nunca mais veria o marqus e nem tampouco
Priory. Por outro lado, era tudo um assunto maravilhoso para o seu
romance. Entretanto, ainda no sabia se faria do marqus o heri ou o
vilo. Tinha planejado que a herona, uma governanta-cinderela que
certamente seria Jane, acabaria casando com um duque. Talvez ele viesse
hospedar-se na casa, a encontrasse no corredor e se apaixonasse por ela
 primeira vista, pensou Lara. Ento, o duque a salvaria do vilo, lorde
Magor. - Preciso conhec-lo, para poder descrev-lo exatamente -
decidiu. Encontrou por entre as rvores um caminho que levava  casa.
Achou que estava na hora de voltar, para estar  disposio de Georgina
quando esta terminasse seu repouso.
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Dali a pouco, as rvores foram substitudas por moitas de lilases que
comeavam a florir. Lara imaginou como ficariam romnticas dentro de
alguns dias. De repente,  ouviu vozes e parou. Era uma voz feminina,
alta e musical, seguida da de um homem. No estavam muito perto, de modo
que Lara no podia distinguir as palavras. Ela deu mais uns passos,
achando que, se fossem hspedes do marqus, devia ter o cuidado  de
evit-los. Ao virar-se, deu com um pavilho e percebeu que era de l que
vinham as vozes. - Est muito bonita, Louise - disse o homem, com voz
grave. - Obrigada, Freddy. Voc sempre diz coisas agradveis. Por outro
lado, estou um pouco melanclica. - Creio que est preocupada por causa
de Ulric. - Claro que estou! Eu tinha certeza de que conseguiria
prend-lo, mas est fugindo e logo serei uma dessas mulheres que
pertencem ao... passado dele! O tom de voz era pattico. Dali a um
momento, o homem disse: - Como  que posso aconselh-la? Conheo Ulric
h anos e sei o quanto ele  imprevisvel! - Eu amo Ulric, Freddy! Amo-o
loucamente e pensei que nunca se cansasse de mim, como se cansou de
Alice, de Gladys e, naturalmente, de Charlotte. - Voc  to bonita,
Louise. No posso acreditar que um homem se canse de voc. Para dizer a
verdade, acho que est sendo pessimista ao pensar que isto est
acontecendo  com Ulric. - Gostaria de poder acreditar! Gostaria de
pensar que significamos tanto um para o outro como h seis meses. Mas,
para ser sincera, sei que  esta a ltima vez que  sou convidada a me
hospedar em Priory. - Tolice! Tolice! Lara percebeu que estava sendo
indiscreta. Ao mesmo tempo, achava a conversa fascinante. Embora no
tivesse dvida sobre o alvo do amor da dama chamada Louise, estava
ansiosa para saber quem eram ela e o tal Freddy. Caminhando com cautela,
para no pisar em algum galho e fazer barulho, afastou-se dali de
mansinho, tomando o caminho de casa. Subindo as escadas, refletiu que
coisas excitantes no paravam de
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acontecer naquele lugar. Era como se o destino a presenteasse com uma
ddiva especial, uma conversa que ela iria relatar em seu romance, palavra
por palavra.
Quando entrou na sala de aula, viu que Georgina estava  sua espera, 
vestida.
- Onde  que estava? Eu queria voc - disse a menina.
- Sinto muito. Fui dar um passeio no bosque e levei mais tempo que 
imaginava.
- Detesto andar! A srta. Cooper me fazia andar, quando o que eu queria
era montar!
- No vou permitir que saia a cavalo, de modo que no adianta resmungar! -
interveio a bab. - Por outro lado, um pouco de ar fresco lhe faria bem.
- Tenho uma ideia! - exclamou Lara. - A srta. Nesbit tem razc ao dizer
que voc no deve montar quando est cansada. Mas garanto quevoc
gostaria de me mostrar Snowball. Podemos ir v-lo na cocheira. No h mal
nisto, no , senhorita?
Como Lara tinha pedido a sua opinio, ela estava disposta a ser
conciliadora. - No. Mas no demorem.
- Prometo que no - respondeu Lara. - Vou s buscar o meu chapu.
Dirigiu-se rapidamente para o quarto. Quando abriu uma gaveta para apanhar
as luvas, viu ali o caderno de anotaes.
- Preciso me lembrar de cada palavra - murmurou.
Depois, ela e Georgina desceram a escada de servio, que levava parte de 
trs de Priory. Saram e dirigiram-se para a cocheira.
- Hoje eu dormi depois do almoo - contou Georgina. - No ficaria cansada
se sasse a cavalo.
- Vai sair amanh cedo - prometeu Lara. - E quero que escolha um cavalo
para eu montar.
Isto deu um novo interesse  menina e ela logo se esqueceu de que no
poderia montar hoje.
As cocheiras eram to maravilhosas quanto Lara imaginara, e cavalos ainda
mais sensacionais.
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Lara foi de baia em baia, sem encontrar adjetivos suficientes para 
elogiar tudo, deixando o cavalario-mor muito feliz com to entusiasta
apreciao.
Ela no imaginava o quanto estava bonita, com olhos brilhantes e faces
rosadas, alguns cachos dos cabelos ruivos saindo do chapu de palha.
- Como  que uma pessoa pode ser to infeliz, possuindo animais to 
maravilhosos? - perguntou, com um tom encantado que no passou 
despercebido ao cavalario-mor.
O marqus  um grande conhecedor de cavalos, senhorita. Vou lhe
mostrar o garanho que comprou no ms passado, em TattersalFs.  um dos
melhores cavalos de raa que j tivemos aqui.
Lara achou que o garanho tinha o dobro do tamanho do cavalo que, em seus
devaneios, imaginara levando-a atravs dos campos... No conseguiu 
conter-se e perguntou:
- Acha que eu poderia... mont-lo? O cavalario-mor pareceu em dvida.
- Terei que perguntar ao marqus.
- Sim,  claro. Provavelmente ele no vai querer que eu monte um cavalo 
recm-adquirido e que deve achar precioso.
- A maioria das senhoras que andam a cavalo aqui no aparecem nas
cocheiras - disse o cavalario. - E, quando vm, tm medo dos animais
muito fogosos.
- Pois  isto o que sempre desejei - contou Lara. - Ento, por favor, 
escolha para mim um cavalo fogoso, para eu montar amanh cedo.
O cavalario-mor riu. Embora ela no pudesse montar o garanho, olack
Knight, o homem lhe mostrou Glorious, sem dvida um belo s'bstituto.
Voltaram para casa, depois de Lara ter visto Snowball e compreendido por
que a menina o amava.
Ser que voc sabe como tem sorte? - perguntou Lara. - Quandoeu era
menina, tinha s um burrinho para montar, at que ele morreu.
Depois mame e eu partilhvamos um cavalo. Mas, quando ficou velho, nao
Pudemos comprar outro.
Vocs eram muito pobres? - perguntou a menina, interessada.
Sim, muito - respondeu Lara.
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Georgina ficou em silncio por um minuto. Depois, disse:
- No  justo, no  mesmo?... que tio Ulric tenha dzias de cavalo e 
voc, que tambm ama esses animais, no possua nenhum.
- Gostaria de ter essa sorte - declarou Lara. - Mas todos ns temos
compensaes. Quero dizer, embora eu no possua cavalos, tenho uma coisa
que seu tio no tem.
- O qu? - perguntou Georgina, curiosa.
- Creio que se pode chamar de "imaginao" - respondeu Lara. Quando no 
posso ter uma coisa boa, como o garanho, por exemplo, eu o imagino e,
deste modo, ele me pertence e ningum pode tir-lo de mim.
Georgina bateu palmas.
- Que ideia linda! Vamos imaginar todas as coisas que queremos ter que a 
bab no poder dizer que so demais para mim, e tambm que tio Ulric no
se negar a comprar!
- Vamos comear - sugeriu Lara. - O que voc deseja? Houve uma pausa. 
Depois, a menina respondeu:
- Gostaria de ter uma orquestra s para mim. Quando elas vm tocar, nas 
festas, a srta. Nesbit sempre me leva para a cama e no posso ouvir nada.
- Ento, gosta de msica?
- s vezes ouo melodias na minha cabea.
- Agora  que estou percebendo que no h piano na sala de estudo
- observou Lara.
Achou isto estranho, pois imaginava que todas as crianas ricas aprendiam
msica.
- Tivemos um h muito tempo - respondeu Georgina. - Mas a bab dizia que
o barulho lhe dava dor de cabea. E a governanta que estava aqui naquela
ocasio s me deixava tocar escalas, o que era muito chato.
Havia na voz dela, quando falava de msica, uma nota de entusiasmo
semelhante  que havia quando falava em montar.
- Deve haver algum piano na casa - disse Lara.
- H um na sala de msica, mas a srta. Cooper nunca ia l.
Lara se lembrou de que, apesar da sua inteligncia, Jane nunca foi muito
musical. Na realidade, Lara no sabia se a amiga tocava piano.
Entraram em casa por uma porta lateral, mas, em vez de subir a escada, 
Lara props:
- Quer me mostrar a sala de msica? A esta hora no deve haver ningum 
l.
Quer mesmo v-la? - perguntou Georgina.
Quero muito!
A menina levou-a pelo mesmo corredor da biblioteca, desta vez em direo 
 ala oeste. Georgina abriu a porta da sala de msica, que Lara 
considerou perfeita.
Provavelmente fora acrescentada ao antigo mosteiro muito depois da 
construo original. Era oval, com pilares em ambos os lados. Um 
magnfico piano Broadwood estava no centro, sobre um estrado.
Lara respirou fundo.
O pianinho velho da casa paroquial estava sempre desafinado, as teclas 
amareladas pelo tempo.
Aproximou-se do piano de cauda, abriu-o e sentou na banqueta.
- Vai tocar alguma coisa? - perguntou Georgina, animada.
- Escute isto aqui. Depois me diga o tipo de msica que voc gosta
- disse Lara.
Tocou primeiro uma parte de uma sonata de Chopin. Depois, imediatamente, 
uma valsa de Strauss.
Percebeu que Georgina a escutava, enlevada.
Ela  muito musical, pensou Lara.
Achou que devia ser este o motivo da indiferena de Georgina por tudo o 
que a cercava, assim como seu desinteresse pelos estudos.
Quando terminou, Lara levantou-se e disse:
- Agora, experimente voc. Georgina fitou-a, surpresa.
- No sou capaz de tocar como voc. Toque mais alguma coisa.
- No. Quero que me mostre o que  capaz de fazer. - S aprendi escalas.
- No importa. Lembre-se do que toquei e veja se  capaz de tocar o 
compasso com um dedo.
Por um momento, Georgina ficou olhando o teclado, com ar de dvida. 
Depois, como se suas mozinhas fossem atradas irresistivelmente,
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tocou as teclas, uma a uma, at que comeou a reproduzir o que estava em
sua mente. Depois, olhou para Lara, que estava de respirao suspensa.
Sorriu e disse:
- Sou capaz de tocar!
- Claro que  - respondeu Lara. - E agora, Georgina, vamos ter aula de msica
todos os dias, enquanto eu estiver aqui.
A menina fitou-a, mal podendo acreditar no que ouvira.
- Aula verdadeira, como esta?
- Sim, exatamente - respondeu Lara. - E garanto que, daqui h algumas
semanas, voc ser capaz de tocar to bem, ou talvez melhor do que eu.
Georgina soltou um grito de alegria. Depois, disse:
- Quero que me ensine, por favor, me ensine! Quero tocar to bem ir
quanto voc. Ser to excitante quanto andar a cavalo.
Ficaram quase uma hora na sala de msica. Depois, Lara achou que a bab
poderia ficar zangada, porque estavam atrasadas para o ch.
- Precisamos voltar para a sala de estudo, por enquanto. Pelo menos at
voc poder fazer uma surpresa a todos e mostrar como toca bem.
- No vou contar a ningum, nem mesmo  bab, porque ela no gosta de 
msica.
- Ser um segredo nosso - repetiu Lara.
Georgina tocou nas teclas mais uma vez, como que em despedida. Lara 
fechou o piano. Saram da sala e caminharam pelo corredor.
Tinham quase chegado  escada que levava  sala de aula, sem passar pelo
hall principal, quando Lara viu um homem dirigindo-se para elas.
Era, obviamente, um hspede. A moa teve vontade de virar e seguir na 
direo contrria.
Depois, achou que seria um erro deixar que Georgina pensasse que estava 
escondendo o que haviam feito. Continuou seu caminho.
O homem era pesado, mas, quando chegaram perto, Lara notou que era 
bonito, de um modo um tanto slido, com olhos escuros e cabelos que 
comeavam a ficar grisalhos nas tmporas.
Nisto, Lara sentiu a mo de Georgina se enfiando na sua. No foi mais
necessrio que lhe dissessem quem era aquele homem. Lara soube
instintivamente, que ia ficar conhecendo lorde Magor.
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CAPTULO IV

Enquanto atravessava o parque, montando Glorius, tendo Georgina a seu
lado em Snowball, Lara refletiu que jamais fora to feliz.
Era uma delcia montar o cavalo mais maravilhoso que conhecera na vida. 
Ela podia ver a beleza de Priory, de um lado, e bosque de velhos 
carvalhos, no outro.
De novo achou que estava sonhando e que precisava reter na memria todos 
os momentos, antes de acordar.
Na vspera, antes de dormir, agradeceu a Deus a imensa felicidade que ele 
lhe concedera.
Ao mesmo tempo, tinha uma sensao de triunfo, porque conhecera lorde 
Magor e no tivera medo dele.
Mas naquele breve contato do dia anterior, Lara achou que ele era
exatamente como imaginava o vilo de uma histria.
Quando viu Georgina, lorde Magor estendeu a mo e disse:
- Boa noite, mocinha. Como vamos passando, hoje?
Lara sentiu que a menina chegava para mais perto dela, antes de 
responder:
- Muito bem, obrigada - respondeu educadamente, mas ignorando a mo
estendida de lorde Magor. Este olhou para Lara com expresso perplexa.
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- E quem  voc? O que aconteceu com a srta. Cooper? Lara fez uma pequena 
reverncia, antes de responder:
- Sou a srta. Wade, milorde. Estou substituindo a srta. Cooper, qUe se 
encontra doente.
- Doente? - exclamou lorde Magor. - Lamento-o.
Mas, na realidade, parecia no lamentar. Olhava para Lara de um modo que 
ela achou ofensivo, examinando-a como se fosse um cavalo.
Nos olhos dele havia uma expresso que certamente teria assustado a 
pobre Jane, na opinio de Lara.
- Peo desculpa, milorde, mas vamos ficar atrasadas para o ch. Lorde 
Magor sorriu e Lara achou seu sorriso desagradvel.
- Parece muito severa, srta. Wade. Espero que no seja muito exigente com 
a pobrezinha da Georgina.
- Creio que ela est plenamente satisfeita com as lies que lhe dou, 
milorde - respondeu Lara. - Boa tarde.
Afastou-se, antes que ele pudesse responder, sabendo que Georgina estava 
mais do que ansiosa para ir embora.
No olhou para trs, mas tinha a sensao de que ele no se movera e que 
as observava.
- Odeio lorde Magor! - exclamou a menina, quando teve certeza de que no 
seria ouvida.
- Ento, evitaremos encontr-lo - disse Lara.
Compreendia perfeitamente que era um tipo de homem dominador, que fazia 
com que Jane se sentisse indefesa e incapaz de enfrent-lo.
Era desprezvel e vergonhoso que um homem da sua posio perseguisse uma 
jovem governanta, indefesa.
Gostaria de faz-lo sofrer, pensou Lara.
Mas era pouco provvel que ele fosse atrs dela, na ausncia de Jane. Ao 
mesmo tempo, por mais inexperiente que fosse com homens, o olhar 
insinuante daquele homem a deixara constrangida.
Depois que o lacaio saiu levando o resto da ceia, Lara esperou at ouvif 
seus passos na escada, ento fechou a porta da sala de aula.
Durante o dia, pde verificar que esta porta possua uma fechadura muito 
forte. Ficou imaginando por que motivo Jane sempre trancava a porta do 
quarto e no fazia o mesmo com a porta da sala de estudo.
Mas Jane, apesar de ser uma doura, era um tanto tola. Mesmo resolvida a 
dar uma lio a lorde Magor, Lara no queria ficar em posio 
desvantajosa at que chegasse o momento ideal para enfrent-lo.
Afastando lorde Magor do pensamento, concentrou-se em cavalgar Glorious, 
at sarem do parque.
Finalmente chegaram  pista de corrida.
Quando o marqus se referiu a ela, Lara pensou que fosse apenas um campo 
de terra batida, talvez com alguns obstculos artificiais. Certamente no 
esperava encontrar um campo preparado como uma verdadeira pista de 
corrida, oval, e com grades cercando-o completamente.
No momento, no havia cercas, mas Lara-pde v-las ao lado de fora da 
grade, prontas pakserem erguidas, caso se tornasse necessrio.
- Que lugar maravilhoso para se galopar! - exclamou. Georgina fitou-a com 
ar indagador.
- Quando venho aqui com um cavalario, no tenho licena de galopar, a 
no ser com ele puxando a rdea.
- Estive observando como voc monta e acho que  muito capaz de fazer 
isto sozinha - disse Lara.
- Claro que sou. E, se pretendo apostar corrida com voc, tenho que ficar 
independente.
- Sei, mas acho que, como Glorious  muito maior do que Snowball, devo 
dar-lhe alguns metros de vantagem.
Ao dizer isto, Lara viu um cavalo sair da mata e percebeu que o marqus 
se dirigia para elas.
-  o tio Ulric! - exclamou Georgina, no parecendo nada satisfeita. Lara 
nada disse. Esperou at que o marqus, montado em Black
Knight, chegasse perto delas.
- bom dia, Georgina - disse ele. - bom dia, srta. Wade. Que tal acha o 
meu campo de corrida?
- Estou impressionada - respondeu a moa. - Georgina e eu vamos aPostar 
uma corrida.
Disse isto em tom desafiador, como se o marqus quisesse impedi-las. Mas 
ele apenas disse:
- Boa ideia. Como voc est montando Glorious, creio que vou fazer lack
Knight entrar na brincadeira.
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Georgina fitou-o apreensiva.
- Quer dizer que vai apostar corrida conosco, tio Ulric?
- Por que no? Mas Snowball precisa ter uma chance de ganhar e sugiro que 
voc comece ali daquele poste.
Lara percebeu que o poste ficava quase no meio do campo, bem mais perto do
ponto final do que o lugar onde eles se achavam agora.
Os olhos de Georgina se iluminaram, tornando seu rostinho mais expressivo:
- Vou levar Snowball at l, tio Ulric. Como  que vou saber quanc devo
disparar?
- Vou dizer: um, dois, trs... j! - respondeu o marqus. - E fazer com que
me oua.
Georgina lanou a Lara um olhar animado e seguiu adiante, montada no pnei
branco, uma linda figurinha com sua roupa de montaria de algodo cor-
de-rosa.
Ao pensar nisto, Lara teve de repente conscincia de sua aparncia.
Estava usando um traje preto, que tinha pertencido  sua me.
Era uma roupa de montaria relativamente cara e bem talhada. Porm lady
Hurlington a usara durante muitos anos, o mesmo acontecendo com Lara, de
modo que estava gasta, principalmente nas costuras.
Embora a blusa de musselina branca estivesse limpa e engomada, Lara no 
tinha a pretenso de estar elegante. No podia se comparar s mulheres 
com quem o marqus costumava passear a cavalo.
Mais ainda, como no usava chapu, a no ser em ocasies especiais, 
estava agora de cabea descoberta, pois sara muito cedo e no esperava 
encontrar ningum. Seu cabelo estava puxado para trs, fazendo um coque 
na nuca, e alguns cachos rebeldes lhe caam na testa.
Ficou imaginando se o marqus estaria escandalizado por uma governanta 
estar vestida to displicentemente, no dando um bom exemplo  sua aluna.
Como se adivinhasse estes pensamentos de Lara, ele disse, secamente:
- Est com uma aparncia pouco convencional, srta. Wade. Por outro lado, 
vejo que sabe montar.
- Ficarei muito aborrecida se, depois de hoje, milorde, achar que no sou 
digna de montar um de seus magnficos cavalos.
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Acho pouco provvel - replicou o marqus. - Mas  o que
veremos no fim da corrida.
Era como se ele a desafiasse. Lara teve a impresso de que ele estava 
sendo deliberadamente provocante para deix-la nervosa e poder venc-la 
com facilidade.
Talvez fosse presuno sua achar que o marqus se preocupava com seus 
sentimentos, pois ele devia consider-la apenas a governanta de Georgina.
A menina chegou ao ponto indicado pelo marqus e acenou com a mo.
O marqus dirigiu-se a Lara:
- Creio que espera que eu tambm lhe d uma dianteira, srta. Wade, 
levando-se em considerao que Black Knight  muito mais veloz do que
Glorious.
- No que diz respeito ao esporte, milorde, espero que seja justo. 
Percebeu que os lbios dele se contraam, como se concordasse com o
que Lara dissera, mas ao mesmo tempo expressando uma atitude de reserva.
Receando ter sido muito ousada, Lara fez seu cavalo caminhar, dizendo:
- Por favor, milorde, avise quando devo parar.
No tinha ido muito longe, quando ouviu a voz do marqus:
- Creio que a  suficiente. Agora, se estiverem prontas... Olhou para 
Georgina e, em voz clara, contou at trs e depois disse:
- J!
Lara percebeu que a menina fez o pnei andar assim que o marqus comeou 
a contar. Ela prpria teve dificuldade em conter Glorious at a Palavra 
final.
Evidentemente, no era a primeira vez que Glorious apostava uma corrida, 
de modo que pulou para a frente, tornando-se mais veloz ao ouvir
O som de Black Knight atrs dele.
O campo era to grande como um hipdromo pblico. A princpio, Lara 
manteve a rdea firme, decidida a tentar vencer o marqus.
Ele ganhava terreno velozmente e Lara percebeu que no se tratava de 
Apular apenas a supremacia dos cavalos, mas era um desafio pessoal, entre 
duas personalidades diferentes.
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No sabia explicar exatamente o que queria dizer com isto. Sabia apenas 
que, como o marqus era muito autoritrio e provavelmente desprezava as 
pessoas  sua volta, ela desejava desesperadamente venc-lo.
Queria provar que ele no podia ganhar de todos e, principalmente, dela.
Lara compreendeu que o marqus fora inteligente, dando a Georgina um 
lugar no campo de modo que ela no atrapalhasse os outros dois 
contendores, ao mesmo tempo dando a Snowball a chance de sair vencedor.
Na realidade, a menina chegou ao poste final dois segundos antes de Lara 
e do marqus, cujos cavalos estavam emparelhados.
No primeiro momento, Lara pensou ter vencido; depois percebeu que com 
magnfica habilidade o marqus passara pelo poste apenas um pouquinho na 
sua frente.
Foi preciso um pouco de tempo para fazer com que Glorius e Black Knight 
voltassem at onde estava Georgina. A menina gritava de alegria.
- Ganhei! Viu que ganhei, srta. Wade.
- Vi, sim. Voc monta muito bem.
- Tio Ulric foi o segundo - disse a menina, quando os dois se aproximaram 
dela.
- E eu fui a ltima - replicou Lara, sorrindo. - Mas Glorious certamente 
se saiu bem.
Inclinou-se e afagou o pescoo do animal. O marqus disse:
- Parabns, srta. Wade. Creio que Georgina tem uma professora muito 
eficiente, neste campo.
- Obrigada, milorde.  um elogio que, sem dvida, aprecio.
- Estou-declarando um fato - corrigiu o marqus.
Expressou-se com sua habitual secura e Lara teve a impresso de que ele 
olhava para sua roupa surrada e seus cabelos em desordem.
Quase podia ler os pensamentos dele, sabendo que a criticava. Ergueu a 
cabea, desafiadora, e disse:
- Obrigada, milorde, por uma experincia inesquecvel. Afastou-se 
deliberadamente, dizendo a Georgina:
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- Creio que devemos ir agora para casa, ou a srta. Nesbit vai pensar que
voc exagerou. Afinal,  seu primeiro dia de equitao depois de ter
ficado doente.
No estou cansada e a bab  uma velha encrenqueira! - disse
Georgina.
Seja como for temos que fazer o que ela disser - declarou Lara. Agradea 
a seu tio por deixar que competisse com ele. Depois, voc pode me levar 
por outro caminho. Eu gostaria de conhecer a mata.
Sabia que devia haver um caminho, por onde o marqus viera.
- Obrigada, tio Ulric - disse a menina.
- Precisamos apostar de novo num outro dia - respondeu o marqus. Os 
olhos da menina se iluminaram.
- Amanh?
- Vou para Londres hoje  tarde - disse ele. - Mas devo voltar na sexta-
feira e a combinaremos qualquer coisa.
- Talvez pudssemos dar duas voltas no campo - sugeriu Georgina, 
esperanosa.
- Isto vai depender da srta. Wade - respondeu o tio.
Olhou para Lara ao dizer isto, levou a mo ao chapu num cumprimento e 
afastou-se. Ela no pde deixar de notar como ele estava elegante,
montado no garanho negro.
O cavalario tivera razo ao dizer que ele era um timo cavaleiro. Lara 
pensou, com desnimo, que por mais que tentasse nunca poderia ganhar uma 
corrida dele.
- Tio Ulric estava muito mais bonzinho do que de costume observou
Georgina. - E no pareceu notar que eu estava sem um cavalario ao meu
lado.
- Sei disso. Nunca mais vai precisar que algum puxe o seu cavalo.
- Voc precisa avisar os cavalarios - disse Georgina. - Do contrrio,
vo querer que eu cavalgue ao lado deles, e no ouviro quando eu disser
que sei andar a cavalo muito bem, sozinha.
- Vou avisar o cavalario-mor - prometeu Lara.
Ao mesmo tempo resolveu que, quando fosse embora dali, pediria ao marqus 
que desse esta ordem, para evitar algum mal-entendido. Ficou imaginando
se ele se interessava realmente pela sobrinha. Tentando
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descobrir isto, perguntou a Georgina, quando se dirigiam para a mata:
- Tenho certeza de que seu to Ulric fcou orgulhoso por ver que voc
sabe montar.
Georgina nada disse e Lara continuou:
- No acha que ele ficou  orgulhoso?
Tio Ulric no se interessa por mim - respondeu Georgina. Apenas fica
muito, muito contente por eu no ser um menino! Lara sobressaltou-se.
- Por que diz isto?
Se eu fosse menino teria herdado o ttulo quando papai morreu.
Papai ficava sempre zango Por eu nao ser o filho que ele esperava, de
modo que ningum me quefr realmente.
Lara a princpio ficou surpresa com o que Georgina disse, mas compreendeu
que ela no estava falando para que tivessem pena dela e sim fazendo uma
constatao- Garanto que isto no  verdade - disse Lara, vivamente.
Sim,  respondeu Georgina. - Se eu tivesse nascido menino,
meu nome seria George, como todos os primognitos da famlia. Ouvi os
criados dizerem que mame sempre rezava para ter um filho e que chorou
muito quando soube que eu era menina.
Pois bem, acho qe homens e mulheres so iguais - observou
Lara. - Pelo menos, no deveria haver diferenas.
Eu gosto de montar- Mas nem todas as mulheres gostam disso,
como os homens.
Sei disto. E tem sorte de ter um tio que possui belos cavalos. Do
contrrio, voc teria que trabalhar muito, para poder comprar um.
Georgina riu, como se isso fosse engraado. Depois, perguntou:
O que  que eu poderia fazer, para ganhar dinheiro?
Felizmente, est a uma coisa que no vai ser necessrio, na sua
vida - respondeu Lara - Por outro lado, tenho quase certeza, Georgina, de 
que se voc se dedicasse bastante a msica, poderia ganhar a vida deste 
jeito.
A menina fitou-a, interessada.
- Para poder ganhar dinheiro tocando piano, eu teria que ser muito boa.
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Muito, muito boa - respondeu Lara. - E acho que  o que voc
ser, se se dedicar.
Na mata, o espao no era bastante largo para elas andarem lado a lado. 
Georgina foi na frente, para indicar o caminho. Lara tinha certeza de que 
a menina estava refletindo seriamente sobre o que ouvira. Isto iria fazer 
com que ficasse ainda com mais vontade de aprender piano.
"Talvez eu esteja errada por lhe dizer isto", murmurou Lara, consigo 
mesma. "Mas estou certa de que Georgina tem um talento que merece ser 
cultivado. Ser uma pena se, depois que eu for embora, ela no continuar 
com as aulas de msica.
Este era um outro assunto sobre o qual devia falar ao marqus. Ento 
saberia mais sobre as possibilidades da menina quando ele voltasse de 
Londres.
Era um prazer saber que lorde Magor tambm ia partir para Londres. Pelo 
menos at sbado, no precisava se preocupar com ele.
Como que para provar o ditado " s falar no diabo e ele aparece", quando 
chegaram em casa e entregaram os cavalos a um cavalario, lorde Magor 
surgiu no alto da escada.
Subindo os degraus, ao lado de Georgina, percebeu que lorde Magor a 
olhava.
Os cabelos ruivos de Lara que brilhavam ao sol, sua pele branca, realada 
pela roupa de montaria preta, faziam com que Magor a olhasse com 
admirao. Mas havia qualquer coisa de desagradvel nesse olhar.
- bom dia, mocinha! - disse ele a Georgina, com sua voz melosa.
- Como vai, esta manh? Gostou do passeio?
- Gostei, obrigada.
- E voc, srta. Wade, est parecendo Diana, a caadora, to bonita como o 
retrato dela no Louvre.
Lara tinha chegado ao alto da escada. Ao ouvir lorde Magor, apenas
inclinou a cabea.
Georgina entrou em casa, na frente. Quando Lara passou por lorde Magor,
ouviu-o dizer, em voz baixa:
E  um quadro que eu gostaria de lhe mostrar um dia.
Por um momento, Lara achou que no ouvira direito. Ia entrar em casa,
quando ele a deteve com um gesto.
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- Vai estar aqui, na prxima semana?
Quando lorde Magor tocou na sua mo, ela se contraiu.
- Talvez, milorde. Agora, com licena. Preciso levar Georgina para cima.
Libertou seu brao e entrou depressa em casa, de cabea erguida. Georgina 
j estava subindo a escada.
Lara ouviu lorde Magor dar uma rsadinha abafada.
Mais tarde, quando a bab lhe contou que o marqus e seus hspedes tinham
partido, Lara achou que se enganara com o que lorde Magor dissera. Talvez
estivesse apenas fantasiando, porque pretendia dar-lhe o papel de vilo
em seu romance.
- O marqus no vai voltar antes de sexta-feira - disse ela,  srta. 
Nesbit. - Haver outra festa?
- Creio que sim. A casa est sempre cheia de gente, mas nunca vemos
ningum, porque no querem que lady Georgina desa, o que  certo.
Lara no fez comentrio algum. Depois disse, especulativamente:
- Talvez alguns amigos do marqus gostassem de ver Georgina. No ser um 
erro mant-la sempre aqui em cima?
A srta. Nesbit fungou, indignada.
- Sei o que  certo ou errado - declarou. - As senhoras que se hospedam 
aqui esto sempre procurando agradar ao marqus. S pensam na prpria 
aparncia!
- Sempre ouvi falar de mulheres que so chamadas "beldades profissionais" 
- disse Lara. - Mas nunca tive oportunidade de encontrar uma delas.
- Vai v-las, se ficar aqui o tempo suficiente, mas isto no ser nenhuma 
vantagem.
No havia dvida quanto  nota de desprezo na voz da bab. Lara disse:
- Conte-me quem esteve aqui no ltimo grupo, pois talvez eu tenha lido 
sobre essas pessoas em revistas ou jornais.
No primeiro momento, pensou que ela fosse recusar. Depois, a velha citou 
nomes que eram mais ou menos familiares a Lara.
- A condessa de Grey, a marquesa de Downshire, lady Louise Lesley...
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Quando citou o ltimo nome, Lara teve um pequeno sobressalto, pois era o 
que queria ouvir.
J ouvi falar das duas primeiras e sei que lady Grey  considerada
uma "beldade profissional". Mas quem  lady Louise Lesley?
Apenas mais uma dama do agrado do marqus! - respondeu a srta.
Nesbit, com azedume. - Durou mais do que as outras, mas vai acabar tendo 
suas asinhas cortadas, como acontece com todas as outras!
O tom era to mordaz, que Lara no pde deixar de rir.
- No h dvida de que ela est na sua "lista negra".
-  verdade - respondeu ela. - No suporto esse "trana-trana" da alta 
sociedade. A pobre princesa Alexandra tem que aguentar as pilantragens do 
prncipe de Gales. No  de admirar que a rainha no aprove essas coisas!
At mesmo em Fladburry, todos sabiam que a rainha no gostava dos amigos 
de seu filho e nem da roda de Marlborough House.
Lara se divertia em pensar que devia haver no mundo inteiro babs que 
expressavam a opinio dos membros mais severos da populao e que 
refletiam tambm a opinio de muitos jornais.
Achando que devia defender o prncipe de Gales, disse:
- Creio que, como ainda  relativamente moo, o prncipe acha Windsor 
Castle muito sombrio.
- Sombrio ou no, a rainha  quem manda e tem que ser obedecida
- replicou a srta. Nesbit. -  um erro algum pensar que pode agir de 
outro modo.
Como se no tivesse mais nada a acrescentar, a bab pegou o croch que 
estava fazendo, e que carregava para todos os lados, e saiu da sala de 
aula.
Mais tarde, quando a arrumadeira, Agnes, veio trocar as roupas da cama, 
Lara perguntou:
- Diga-me, Agnes, lady Louise Lesley tem vestidos muito bonitos?
- Oh, so lindos, senhorita! - exclamou Agnes. - Tenho ajudado a criada
de quarto dessa senhora a passar seus vestidos. A senhorita no imagina 
como so bem-feitos, bordados de prolas e de brilhantes, ainda Por cima!
Voc acha que ela se casar com o marqus?
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Agnes fitou-a, surpresa:
- Isso no  possvel, senhorita. Lorde Lesley ainda  vivo. s vezes vem
aqui com a esposa quando no est pescando na Esccia.
- Ento ela  casada? - exclamou Lara.
Depois achou que tinha sido tola ao imaginar, quando ouvira conversa 
entre o tal Freddy e Lady Louise, que havia a possibilidade  dela casar
com o marqus.
Comeara a introduzi-la em seu romance como a moa que sonhava se casar
com o marqus, mas este se esquivava justamente quando a herona julgava
que o havia conquistado.
Em vez disto, lady Louise era a vil, uma mulher que traa o marido!
No havia dvida de que devia ser condenada pela bab, assim cono pelas
pessoas que ouviam os sermes do pai de Lara.
Como o marqus parecia cnico e distante, Lara nunca pensara nele como
sendo o heri ardente e apaixonado que pretendia descrever em seu romance.
No podia esquecer como lady Louise parecia triste e pattica, quando
dissera:
- "Eu tinha certeza de poder prend-lo, mas ele me escapou e eu  serei
como as outras mulheres que pertencem a seu passado".
Como pudera dizer isto, se j tinha um marido? E as outras mulheres que 
pertenceram ao marqus seriam tambm casadas?
Lara teve a impresso de ouvir de novo a voz de lady Louise:
- "Eu tinha certeza de que ele nunca se cansaria de mim, como cansou de
Alice, de Gladys e, naturalmente, de Charlotte".
Vendo-a silenciosa, Agnes fitou-a, apreensiva, e disse:
- Talvez eu no tivesse ter lhe dito nada!
- No se preocupe, Agnes. Eu estava pensando nas festas que realizam aqui 
e desejando poder assisti-las.
- Vai haver uma, na prxima semana - contou Agnes. - Vou lhe mostrar como
pode espiar as senhoras, quando se dirigem para o salo e jantar. So
muito bonitas. Quando o prncipe de Gales se hospeda aqui os cavalheiros
usam suas condecoraes e elas brilham que  uma beleza!
No havia dvida de que isto entusiasmava Agnes.
- Gostaria muito de ver! - exclamou Lara.
68
Deixe por minha conta, senhorita. Mas no diga nada  bab. Ela
no aprova o "trana-trana" l de baixo. Mas, se quer saber a verdade,
acho que morre de inveja.
Era destas informaes que precisava para o seu livro. Ao mesmo tempo, 
diante do que ouvira, achou que o enredo estava ficando muito complicado.
Em uma coisa no h dvida, pensou Lara. Lorde Magor era o vilo!
Depois, teve a desagradvel sensao de que o marqus tambm poderia 
competir para este papel. Afinal de contas, havia Alice, Gladys e 
Charlotte, sem falar em lady Louise, para provar a vilania dele!
No dia seguinte, Lara sentiu a casa mais feliz e mais livre com a 
ausncia do marqus. No havia ningum ocupando os quartos principais, e 
as salas estavam vazias.
Georgina levou-a para conhec-las. Eram muito bonitas, atraentes e bem 
decoradas, com inmeros objetos de arte valiosos.
- Esta  a sala de visita da rainha - contou Georgina.
Lara viu que ali havia quadros e relquias que tinham pertencido no
apenas  rainha Elizabeth, mas a outras rainhas que durante sculos
frequentaram Priory.
Havia tambm a estufa, o salo azul e o salo prateado, alm do salo de 
baile que Lara achou sensacional.
Em puro estilo elisabetano, a capela ostentava genuflexrios originais 
entalhados. O curador lhe mostrou ainda um biombo antigo, que fora 
encontrado na adega, no poro da casa onde ficara oculto durante dois 
sculos.
Quando o curador e Georgina se afastaram para olhar outra coisa, Lara Se 
ajoelhou e fez uma prece de agradecimento. Pediu tambm a Deus que a 
ajudasse a desenvolver em Georgina um talento que passava despercebido de 
todos.
- Ajudai-me, meu Deus, a fazer com que ela seja feliz.
Depois, quase como se visse a imagem do marqus ante seus olhos, Percebeu 
que estava tambm rezando para que ele fosse feliz.
No sabia por que tinha tanta conscincia dele, como pessoa. Era difcil 
Pensar que, possuindo tanta coisa, um homem no fosse feliz, j que o 
Destino o cumulara de tantos benefcios.
69
O que ser que o perturba?, pensou. Depois achou que isto no era da sua 
conta.
Pelo fato de o marqus ser to diferente de qualquer homem que ela 
conhecia, ou imaginava, pensava continuamente nele.
Os dias passavam. Cada vez que Lara levava Georgina para tocar piano, 
mais convencida ficava de que a menina tinha grande aptido para msica.
Dentro de poucos dias, Georgina era capaz de tocar de ouvido qualquer 
coisa que Lara lhe ensinasse.
Pela maneira como seus dedos deslizavam pelo teclado, pelo seu toque Lara 
percebia que a msica fazia parte da personalidade da menina. Seria 
apenas necessrio muita prtica para que suas qualidades musicais viessem 
 tona por completo.
Lara pensou, com certo desnimo, que seria difcil convencer o marqus 
desse fato.
Georgina dissera que o tio no se interessava por ela. Neste caso, como 
Lara saberia se, depois que ela fosse embora, a menina iria ter os 
melhores professores e uma chance de se tornar, se no um gnio, pelo 
menos uma pianista competente?
- Farei com que ele compreenda - disse a si mesma. Estava decidida a se 
esmerar no piano, para que Georgina tivesse um bom padro a seguir.
Montagem a cavalo todos os dias, com um prazer imenso. Lara logo sabia
orientar-se na mata e nos campos  volta da casa.
Mais tarde, as duas passaram a ir mais longe, descobrindo que a 
propriedade era bem cuidada e cultivada. As casas dos arrendatrios eram 
bonitas, como se fizessem parte de um livro de gravuras.
Atravessaram florestas de pinheiros, pararam  margem de riachos que 
cortavam campos frteis e, por fim, encontraram pequenas aldeias onde 
sempre havia uma estalagem antiga, um prado e uma lagoa de patos.
 medida que o tempo passava, Lara percebia o quanto tinha ainda para 
fazer, quantas pessoas ainda queria conhecer. Quando ia para a cama,  
noite, pegava no sono imediatamente, tal o cansao que sentia pela vida 
intensa que estava levando.
Levou um choque quando Agnes lhe disse, um dia:
70
O marqus chega hoje  noite, senhorita. Sabe quem o acompanha?
- Ele vem aqui? - exclamou Lara.
- Sim, vem. E, naturalmente, com sua amiga, lady Brooke. Lara arregalou 
os olhos.
Sabia quem era lady Brooke, porque via frequentemente seu retrato no 
Lady's Journal.
A revista descrevia a beleza e a fortuna de lady Brooke, que casara com o 
filho mais velho do conde de Warwick. Havia retratos dela, com seus 
vestidos elegantes, em quase todos os nmeros da revista.
Lara no podia acreditar no que Agnes estava insinuando. Vendo que ela 
parecia perplexa, a criada disse, em voz baixa:
- Todo mundo sabe que o prncipe est apaixonado por ela. Viajam juntos 
no trem especial dele, e sempre se hospedam em Faston Lodge.
- Ento... ele est apaixonado por ela - disse Lara, com voz estranha.
- Oh, sim. O criado de quarto do prncipe diz que ele no pode tirar os 
olhos dela. Quando lady Brooke d uma festa em homenagem ao prncipe, 
convida todos os amigos dele, inclusive o marqus.
At agora, os jornais sempre citavam o nome do prncipe ligado ao da bela 
Lily Langtry. Lara achou que os cavalheiros do crculo de Marlborough 
House estavam sempre trocando de amores. Provavelmente o marqus seguia o 
exemplo de Sua Alteza Real.
Achou que seria indiscreto dizer isto a Agnes. Mas, como desejava obter 
material para o seu romance, perguntou:
- Lady Brooke  a mulher mais bonita que vem aqui?
-  difcil dizer, senhorita - respondeu Agnes. - So todas fascinantes, 
mas lady Brooke  muito meiga e amvel. Todos aqui a admiram.
Deu uma risadinha e continuou:
- Assim como sua Alteza Real a admira!
Lara no pde deixar de pensar que sua me no teria aprovado esta 
conversa, mas precisava de mais informaes.
- Lady Louise tambm vem neste fim de semana? Agnes sacudiu a cabea.
- No tenho certeza. Mas vou saber, assim que o sr. Simpson der 
71
sra, Blossom, a governanta da casa, a lista de distribuio dos quartos.
Na tarde seguinte, Lara no resistiu e perguntou a Agnes quem estava na
lista. A criada desfiou uma poro de nomes, alguns dos quais Lara
conhecia, por ter ouvido falar neles, outros totalmente desconhecidos
para ela. Mas um no a surpreendeu: o de lorde Magor.
- Lorde Magor tem alguma amiguinha especial? - perguntou Lara. Agnes 
encolheu os ombros.
- Pelo que sei, lorde Magor gosta de ser amigo ntimo do patro. Faz
parte de todos os grupos de convidados, por assim dizer.
Lara achou isto incompreensvel, porque, se lorde Magor podia escolher
entre tantas beldades, por que iria interessar-se pela pobre Jane e 
talvez, por ela, Lara?
Concluiu que talvez ele gostasse de mulheres que no eram sofisticadas
como as hspedes da manso do marqus.
"Gosto no se discute", o pai de Lara costumava dizer.
Talvez, pelo fato de ser autoritrio, lorde Magor gostasse de mulheres 
tmidas e que tivessem medo dele, o que certamente no aconteceria com 
lady Brooke, ou lady Grey.
Lara estava decidida a manter fechada a porta da sala de aula. Ou estaria
sendo presunosa, ao imaginar que lorde Magor se interessava realmente
por ela?
s cinco horas da tarde, a casa toda fervilhava como uma casa de abelhas.
Havia arrumadeiras por toda a parte, preparando os quartos, embora
tivessem sido arrumados todos os dias.
Lacaios de uniforme esperavam no hall, os botes prateados das librs
brilhando ao mximo.
A governanta da casa, a sra. Blossom, com um chtelaine de prat 
dependurada na cintura, inspecionava os quartos, encontrando falhas onde 
tudo parecia perfeito.
Num tom de voz diferente do que usava antes, quando se referia ao tio
Georgina disse:
- Tio Ulric vai voltar. Voc acha que vai querer apostar corrida conosco,
como na semana passada?
- Creio que estar ocupado demais j que o prncipe de Gales tambem
72
vir - respondeu Lara. - No fique decepcionada, se tivermos que correr
sozinhas.
-  mais divertido quando o tio Ulric tambm aposta - declarou a menina. 
- A, so trs cavalos, em vez de dois.
- Esperemos que ele se lembre de que voc deseja v-lo.
Georgina soltou um suspiro. Ocorreu a Lara que era crueldade do marqus 
no compreender que a sobrinha levava uma vida montona, apesar do luxo 
que a cercava.
Est a outra coisa sobre a qual quero falar ao marqus, pensou Lara,
achando graa de sua presuno.
Como poderia dizer, justamente ao marqus, o que ele devia ou no fazer?
Apesar disso, por causa de Georgina, precisava tentar convenc-lo a 
deixar a sobrinha estudar msica. E, naturalmente, melhor do que qualquer 
outra coisa, deveria trazer meninas da idade dela para Priory.
- Deve haver meninas e meninos da idade de Georgina, na vizinhana
- disse ela  bab.
- Se houver, como poderemos conhec-los? - respondeu a mulher, secamente.
- Deve compreender, srta. Wade. Como aqui no h uma dona-de-casa, a vida
de famlia  praticamente nula.
Lara sabia que era verdade. Quando sua me era viva, convidava outras 
crianas para o ch, e assim Lara tambm era convidada para outras casas,
mesmo vivendo numa parte isolada de Essex.
Porm aqui as coisas eram diferentes. No era apenas uma questo de as 
famlias locais convidarem Georgina para suas casas. Para incio de 
conversa, elas deviam primeiro ser chamadas a vir a Priory.
Lara conhecia a soluo, mas o problema era pr seu plano em prtica. 
Tudo ia depender do marqus.
Ser que ela e Georgina o veriam neste fim de semana?
Tinham acabado de tomar ch, na sala, quando Georgina perguntou, 
queixosa, se poderiam ir  sala de msica mesmo havendo hspedes na casa. 
Nisto a porta se abriu.
Lara ergueu os olhos, esperanosa, pensando que talvez fosse o marqus.
Mas quem entrou foi lorde Magor.
73
Lara levantou-se lentamente e Georgina fez o mesmo. Magor disse. com sua 
voz melosa:
- Ol, mocinha,  um prazer tornar a v-la. O que andou fazendo, enquanto 
seu tio e eu estvamos em Londres?
No esperou pela resposta. Olhou para Lara e perguntou com um sorriso 
desagradvel.
- Ser que est pronta a me dar as boas-vindas, srta. Wade? Lara sentou-
se de novo  mesa.
- Estamos tomando ch, milorde.
- Calculei que era o que estariam fazendo. E, j que estou aqui, aceito
uma xcara, servida por suas belas mos.
O homem estava flertando com ela, como se estivessem representando no 
teatro. De repente, ocorreu a Lara que precisava lembrar-se de todos os 
detalhes, para colocar esta cena em seu romance.
- Vou tocar a campainha para pedir outra xcara, milorde respondeu ela, 
delicadamente.
- No se incomode! - exclamou Magor. - O que desejo realmente  conversar 
com voc.
Fitou-a de um modo que indicou a Lara que estava avaliando suas
qualidades, a cor do cabelo, a brancura da pele.
Quando Magor olhou para o corpo de Lara, ela teve a impresso de que ele 
a despia e odiou-o por isto.
- Infelizmente, creio que no podemos pedir-lhe que fique aqui, milorde, 
pois prometi ler em voz alta. para Georgina, antes que ela v dormir. 
Como se trata de uma lio, o senhor deve compreender que no podemos ser 
perturbadas.
Lorde Magor riu.
- Est querendo se livrar de mim? Deixe-me dizer-lhe, minha professorinha 
severa, que, se  uma pessoa determinada, tambm eu o sou. Vim aqui falar 
com voc e com minha sobrinha adotiva. No tenho inteno de ir embora, 
enquanto no me der vontade.
Ele tinha declarado guerra e Lara percebeu isto.
- Naturalmente, milorde. Se quer falar com Georgina, acho perfeitamente 
compreensvel.
Levantou-se e atravessou a sala, em direo ao seu quarto.
74
- Aonde vai, srta. Wade? - perguntou Georgina, nervosa. - Disse que ia 
ler para mim.
Era uma coisa de que a menina gostava muito, pois Lara tinha encontrado
na biblioteca vrios livros com histrias que Georgina tinha idade
suficiente para apreciar.
- Estarei no meu quarto. Se precisar de mim,  s chamar - disse Lara.
- Quero voc agora! Agora, neste momento! - exclamou Georgina. Levantou-
se e, evitando a mo que lorde Magor estendeu para det-la,
correu para Lara, agarrando-se a ela.
- Leia para mim agora! - insistiu.
Por sobre a cabea da menina, Lara olhou para lorde Magor.
- Sinto muito, milorde, mas deve compreender que o interesse de minha 
aluna est em primeiro lugar.
Lorde Magor levantou-se, tendo nos olhos uma expresso que indicava toda 
a sua insatisfao.
- Est certo, srta. Wade. Venceu... por enquanto! Dirigiu-se para a porta 
e acrescentou:
- Boa noite, Georgina. Vou dizer a seu tio que voc estava muito abatida 
para conversar comigo. Espero que ele no pense que voc est doente 
demais para montar, amanh.
Essa clara ameaa fez com que Lara ficasse furiosa. Ele saiu, fechando a 
porta.
- O que foi que ele quis... dizer? - perguntou Georgina. - No estou 
doente, srta. Wade!
- Claro que no est - respondeu Lara, conciliadora. - Lorde Magor estava 
sendo desagradvel porque voc no quis conversar com ele.
- Se ele disser a tio Ulric que estou doente, no vou ter licena para 
montar, amanh.
- Deixe por minha conta. Prometo que sairemos a cavalo juntas e que no 
deixarei lorde Magor interferir neste assunto.
Pegou o livro e dirigiu-se para o sof.
- Venha sentar-se aqui.
Ao ver que Georgina estava realmente perturbada, acrescentou:
75
- Tenho uma ideia melhor. Vamos para a sala de msica e voc poder tocar 
sua sonata preferida.
- Podemos fazer isso?
- Por que no? - perguntou Lara. - Mas vamos logo, antes que algum nos 
impea.
Quando desciam pela escada de servio, Lara teve a sensao de que 
lavrara um tento contra lorge Magor e que o colocara em seu devido lugar.
Ele tinha procurado atingi-la atravs da menina. Mas Lara sabia que, 
assim que Georgina mergulhasse na msica, deixaria de pensar no passeio a 
cavalo do dia seguinte e esqueceria lorde Magor.
Como ainda estava zangada, Lara disse a si mesma que Jane tinha razo.
Magor era, decididamente, o vilo, e um vilo muito desagradvel!
76

CAPTULO V

Lara e Georgina desceram pela escada de servio e ganharam o corredor que 
levava  sala de msica.
No havia ningum por perto. As duas caminhavam rapidamente, quando se 
abriu a porta de uma sala que Lara no conhecia, e o marqus apareceu.
A moa sobressaltou-se. Georgina olhou apreensiva para o tio.
- Ol, Georgina! - disse ele. - Para onde vai?
Ocorreu a Lara que era uma ocasio oportuna de falar ao marqus sobre sua 
sobrinha.
- Boa noite, srta. Wade.
Ele falou com sua maneira seca caracterstica. Lara fez uma reverncia.
- Boa noite, milorde. E, a no ser que esteja muito ocupado, gostaria de 
lhe falar, por um minuto.
O marqus ergueu as sobrancelhas.
- No h dvida de que agora estou livre, srta. Wade. Lara virou-se para 
Georgina.
- V para a sala de msica, querida, e prepare tudo. Irei ao seu encontro 
dentro de alguns minutos.
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Georgina olhava nervosamente para o tio, com medo de que alguma coisa 
estranha estivesse acontecendo. Porm obedeceu, caminhando depressa, a 
faixa azul do vestido balanando-se com seus movimentos.
Lara olhou para o marqus.
- Ento, srta. Wade? Vai me dizer aqui o que h de errado, ou prefere que 
nos sentemos?
- No h nada de errado, milorde, mas talvez seja melhor irmos para uma 
saleta.
O marqus abriu a porta da sala de onde acabara de sair e disse:
- Aqui no seremos incomodados.
Lara viu que se tratava de um escritrio. Pelos mapas emoldurados e 
dependurados nas paredes, percebeu que era aqui que o marqus cuidava dos 
assuntos da propriedade.
Havia uma cadeira dura diante da escrivaninha. Lara se dirigiu para l e 
o marqus sentou-se em frente a ela.
Houve uma pequena pausa, como se a moa estivesse  procura de palavras. 
O marqus reclinou-se na cadeira, muito  vontade, e dali a um momento 
falou:
- Estou esperando.
Lara achou seu tom divertido, como que considerando o que ela tinha a 
dizer como desnecessrio e sem importncia. Instintivamente, a moa 
ergueu o queixo e respondeu:
- Desejo falar-lhe sobre Georgina, milorde.
Lara teve a impresso de que no era isto o que o marqus esperava.
- Se vai dizer que ela  retardada, j ouvi isto de outras governantas e 
nada posso fazer a respeito.
Lara respondeu, vivamente:
- Pelo contrrio. O que vou dizer talvez o surpreenda, mas na minha 
opinio Georgina pode vir a ser, em matria de msica, uma artista muito 
talentosa, para no dizer excepcional.
O marqus pareceu no acreditar no que ouvia.
- Como  que voc sabe?
- Talvez o senhor ache que no tenho competncia para julgar - respondeu 
Lara. - Mas aprendi a tocar piano e tenho certeza de que, se Georgina 
tiver bons professores, poder chegar a ser uma virtuose.
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Como  que voc pode saber, estando aqui h apenas uma semana?
- perguntou o marqus. Lara sorriu.
- O que vou sugerir, milorde,  que oua Georgina tocar. Deve lembrar que 
ela no teve aulas de msica, a no ser as que lhe dei. Ela toca somente 
de ouvido, depois de ter escutado as msicas que toquei para ela.
Fez uma pausa e acrescentou, com nfase:
- Ficarei admirada, milorde, se no achar extraordinrio o que ela j 
consegue fazer.
O marqus ficou em silncio. Depois, disse:
- Confesso que estou surpreso com o que acaba de me dizer, srta. Wade. 
Quase todas as governantas que ela teve, com exceo da srta. Cooper, que 
parecia ter medo de falar comigo, se queixaram da apatia e da indiferena
da menina em todas as matrias, o que parecia at mesmo indicar uma
determinao de no querer aprender.
Lara no respondeu por um momento, refletindo como poderia se expressar.
Depois, disse:
- Georgina  uma menina muito sensvel. Creio que ficou perturbada ao
saber que seus pais ficaram decepcionados por ela ser menina e no
menino.
- Como ela poderia ter sabido disto? - perguntou o marqus, com certa
brusquido.
- Os criados costumam falar diante das crianas como se elas fossem
surdas - respondeu Lara. - Parece que um deles chegou mesmo a dizer,
diante de Georgina, que sua me chorou quando ela nasceu, porque no era
o filho que eles queriam. E o pai demonstrava claramente a Georgina a sua
decepo.
O marqus nada disse e Lara continuou:
- Um outro golpe, que tambm a machucou,  saber que se fosse menino
estaria no seu lugar, milorde.
De novo Lara causou surpresa ao marqus, que pareceu no acreditar no que 
ouviu.
- Georgina lhe disse isto? Ou foi voc quem ps esta ideia na sua Cabea?
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Lara contraiu-se. O marqus viu que os olhos dela brilhavam de clera.
Antes que ela respondesse, ele disse, vivamente:
- Peo desculpas. No devia ter dito isto.
- Aceito suas desculpas, milorde, mas estou humilhada por ver que pde 
pensar isto de mim, mesmo por um s momento! Eu jamais faria isto.
- Perdoe-me. Minha nica desculpa  saber muito pouco a respeito de 
crianas.
- Ento, posso dizer mais uma coisa, milorde? - perguntou Lara. J que 
estamos sendo francos?
- J que voc est sendo franca - observou o marqus.
- Est bem. E, se est zangado,  melhor eu acabar com isto de uma vez.
- Procurarei no ficar zangado, embora ache que voc est insinuando que
fui muito estpido no que diz respeito  minha sobrinha.
- No vou ser rude a este ponto, milorde. Mas, digamos que no deu a ela 
a ateno, nem demonstrou o interesse que tem por seus cavalos.
O marqus riu, um tanto magoado, e disse:
- Est certo. Aceito a crtica. Agora, diga o que tem em mente.
- No posso deixar de pensar que, sendo rf e, portanto, uma criana 
solitria, introspectiva, que se sente indesejada, a melhor coisa para 
Georgina seria ter amigas e receb-las aqui. E, se possvel, fazer com 
que viessem para estudar juntas.
Lara respirou fundo e continuou:
- Atualmente, ela passa o tempo com adultos. A srta. Nesbit  muito 
possessiva e a trata como um beb.
Quando terminou, Lara esperou que o marqus a repreendesse por ter
impertinncia em criticar a ele e aos seus empregados.
- Creio que compreendo o que est dizendo, srta. Wade. Permite que eu
reflita sobre isto?
Lara deu um sorriso que pareceu iluminar-lhe o rosto.
-  s o que peo, milorde. Muito obrigada. Levantou-se, ao dizer isto, e
acrescentou:
- E, agora, por favor, quer ouvir Georgina tocar?
-  o que pretendo fazer - declarou o marqus. - Espero que voc
80
no fique decepcionada, ou mesmo zangada, se eu no concordar com a sua
opinio de que ela poder vir a ser uma grande artista.
Dirigiu-se para a porta e abriu-a para Lara. Caminharam juntos pelo
corredor em direo  sala de msica.
- Acontece que sou considerado uma autoridade em msica - disse o 
marqus. - Sou um dos diretores de Covent Garden. O prncipe de Gales 
frequentemente me pede para escolher os artistas que vo divertir os 
hspedes de Marlborough House.
- Ento, milorde,  obviamente a pessoa indicada para ajudar Georgina.
-  o que vamos ver - respondeu o marqus, como se no quisesse ser 
levado pelo entusiasmo dela.
Caminharam em silncio para a sala de msica. Quando chegaram  porta, 
Lara ergueu a mo e o marqus parou.
Georgina estava tocando. Lara sabia que qualquer pessoa poderia duvidar 
de que era a execuo de uma criana daquela idade.
A melodia da valsa de Strauss chegava at eles com uma profundidade de 
ritmo e de sentimento que poderia vir dos dedos de um concertista de 
piano.
Dali a pouco, Lara abriu a porta e entrou na sala.
Georgina parecia muito pequena diante do piano de cauda. Estava to 
atenta ao que fazia que no notou a entrada dos dois.
Ao terminar uma oitava que seus dedinhos mal alcanavam, ela ergueu os
olhos e deixou as mos carem no colo.
- Muito bem, Georgina! - esclamou Lara. - Agora quero que toque para o 
seu tio a msica que executou para mim, ontem.
- Talvez tio Ulric no goste de... que eu venha aqui - disse Georgina,
nervosa.
- Estou encantado por ver a sala de msica finalmente ser utilizada 
respondeu o marqus. - Creio que esteve abandonada por muito tempo.
- Posso continuar vindo aqui, para tocar? - perguntou a menina. Falou 
como se a ideia de uma proibio a preocupasse. O marqus
respondeu:
- Sugiro que toque mais alguma coisa, para que eu diga se aprecio a sua 
execuo, tanto quanto a srta. Wade.
81
- A srta. Wade acha que poderei ser uma boa pianista, se me aplicar 
bastante.
- Foi o que ela me disse. Mas agora voc pode provar isto com mais 
eloquncia, tocando.
Georgina sorriu, como se esta ideia a divertisse.
- Sim,  claro, tio Ulric.
Comeou a tocar uma ria de A Traviata, que Lara havia tocado no 
princpio da semana.
Era uma pea difcil. Lara achou que no era o tipo de msica leve e 
sonhadora que o marqus esperaria de uma criana.
Foi sentar no sof, um pouco distante do piano, para no atrapalhar 
Georgina.
Como se compreendesse o que ela estava fazendo, o marqus tambm se 
afastou, indo apoiar-se numa das colunas.
Primeiro, ficou observando Georgina. Mesmo sem olhar para o marqus, Lara 
percebeu que depois ele a observava.
Isto a deixou encabulada.
Ao mesmo tempo, sentia-se to ansiosa para que Georgina impressionasse 
bem o tio, que no podia relaxar. Estava sentada, bem ereta, com as mos 
cruzadas no colo. Embora no o percebesse, rezava.
Como sempre acontecia quando estava ao piano, depois de uma curta 
hesitao Georgina ficou totalmente absorta pela msica, esquecendo de 
todo o resto.
Era levada para um mundo s seu, muito diferente de qualquer outro que 
tivesse conhecido em sua vida montona.
Quando acabou de tocar, havia em seu rosto uma expresso de xtase.
Por um momento, apenas por um momento, ficou imvel. Lara compreendeu que 
ela ainda estava num mundo de sonhos, antes de voltar  realidade.
No falou. Ficou  espera. Depois, com um suspirozinho que parecia vir do 
ntimo do seu ser, a menina perguntou:
- Fui... bem?
Olhou para Lara, ao dizer isto.
- Foi muito bem, levando-se em conta que tocou isto apenas duas ou trs 
vezes antes.
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Ao dizer isto, Lara olhou para o marqus como se o desafiasse a
discordar.
Ele se dirigiu para o piano.
- Conforme disse a srta. Wade, foi muito bem, Georgina. Agora temos que
resolver o que fazer com voc, no futuro.
- O que quer... dizer?
- Se voc quer ser pianista, vai precisar dos melhores professores. 
Talvez seja possvel encontrar aqui no campo algum que lhe d lies 
durante um ano ou mais. Creio que voc ter que ir para Londres, pelo 
menos durante a semana, para ter aulas com algum da Academia de Msica.
- Parece formidvel, tio Ulric! - exclamou Georgina. - Mas ser que vou 
poder montar, quando estiver em Londres?
- Achei que iria perguntar isto - respondeu o marqus, sorrindo. - E a 
resposta  "sim". Poder ir a cavalo ao parque, todas as manhs, como 
eu. E quando vier para c, nos fins de semana, ter oportunidade de
galopar na pista de corrida.
Georgina fitou-o.
- Parece maravilhoso! Maravilhoso, tio Ulric! Quer dizer que posso fazer 
isto e ainda aprender a tocar bem, como a srta. Wade? Acha que posso?
- Creio que voc vai ter que dar duro, para no decepcionar a srta. Wade 
- respondeu o tio.
Ao dizer isto, olhou para Lara. Ela achou que o marqus estava querendo 
provoc-la. Depois, como se quisesse ser honesto, ele acrescentou:
- Tem toda a razo, srta. Wade. E, antes que me diga, est a uma coisa 
que eu devia ter descoberto h muito tempo. 51
Lara deu uma risadinha.
- Est sendo inesperadamente generoso, milorde, mas sempre ouvi dizer:
"Cuidado com presente de grego!"
Os olhos do marqus brilharam e isto pareceu por um momento anular as
rugas duras de seu rosto.
- Agora que voc e sua protegida me convenceram do que deve ser feito,
vou dar ateno prioritria a isto.
83
- Obrigada, milorde - respondeu Lara, radiante. - No sei dizer o quanto 
isto me alegra.
Como se pudesse ler os pensamentos do marqus, Lara soube que ele estava 
imaginando por que a menina que ela conhecera h apenas uma semana j 
significava tanto para ela. Mas parecia que o marqus no queria fazer 
tal pergunta na frente de Georgina.
Como poderia dizer-lhe que, embora jamais se sentisse indesejada, 
conhecera a solido de uma criana que no tinha outras com quem brincar?
Ocorreu-lhe que tudo isto poderia fazer parte do seu romance. Mas, at 
agora, no se preocupara muito com crianas, no enredo.
- Quer que eu toque mais alguma coisa, tio Ulric? - perguntou Georgina, 
ansiosa. - A srta. Wade me ensinou uma valsa de Offenbach. Disse que tem 
certeza de que voc dana ao som desta msica, nos bailes de Londres.
- Terei prazer em ouvi-la, Georgina.
A menina tocou o primeiro acorde. Logo estava tocando uma das melodias 
que tinham conquistado Paris e que, para Lara, simbolizava a alegria dos 
bailes sobre os quais ela lera, embora nunca tivesse ido a nenhum deles.
Como Georgina tocava bem, Lara teve vontade de danar. Imaginou que 
estava deslizando pela sala, com um vestido maravilhoso, nos braos de um 
belo homem.
Quando a msica terminou, percebeu que o marqus de novo a fitava com uma 
expresso que ela considerou indagadora.
Talvez o marqus no aprove que eu fale dele desse modo, na frente de 
Georgina, pensou a moa constrangida.
Como esta ideia a perturbasse, levantou-se, disposta a sair dali.
- Muito bem, Georgina - disse o marqus, em tom de aprovao. Deixe-me 
dizer, de uma vez por todas, que tocou muito bem e que vou providenciar 
para que tenha os melhores professores.
- Obrigada. Muito obrigada, tio Ulric - exclamou a menina. - E, se eu me 
aplicar bastante, talvez um dia voc tenha... orgulho de mim.
Lara prendeu a respirao, ficando a imaginar se o marqus compreenderia 
o quanto sua resposta seria importante para a sobrinha. Foi
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como se, neste momento, Georgina visse nele o pai que ela havia perdido.
- J tenho orgulho de voc, Georgina, como tive quando ganhou a corrida a 
cavalo - respondeu o tio, com sua voz grave. - Creio que amanh devemos 
competir de novo, no acha?
Ao dizer isto, estendeu a mo para Georgina.
- Ser timo, tio Ulric. E, se Snowball ganhar de novo de Black Knight, 
garanto que ele vai ficar muito convencido.
- Certamente. Neste caso, talvez eu no deva mais lhe dar tanta vantagem.
- Por favor, me d uma vantagem quase to... grande como a do outro dia - 
pediu Georgina.
O marqus sorriu.
- Veremos isso, amanh. E, naturalmente, uma vitria vai depender da sua 
habilidade como cavaleira.
- Sei disto. E vou fazer o possvel para montar to bem quanto voc e a 
srta. Wade.
- Tem toda a razo, porque ns dois somos excepcionais - disse o marqus.
Segurando a mo de Georgina, desceu do tablado e aproximou-se de Lara.
A compreenso e a bondade do marqus fizeram com que a moa se sentisse
muito feliz. Fitou-a e disse, em voz suave:
- Obrigada, milorde.
A bab ps Georgina na cama, mostrando-se um tanto irritada porque elas 
tinham demorado para subir e, tambm, porque a menina estava excitada com 
tantos acontecimentos. Evidentemente, sentia cime. Lara foi para o seu
quarto, trocar de roupa para o jantar.
No tinha muita escolha, pois seu guarda-roupa era escasso, e o de Jane 
tambm no era grande coisa!
Jane tinha um vestido azul, bonitinho, mais ou menos elegante, que Lara 
estava ansiosa para experimentar.
Acabou concluindo que era perda de tempo. Alm do mais, no devia usar as 
roupas de Jane que, assim como ela prpria, no podia comprar mais do que 
um ou dois vestidos por ano.
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Estava tirando do armrio um de seus vestidos, quando Agnes apareceu.
- Desculpe o atraso, senhorita, mas tivemos muito servio l embaixo.
- Por que isto? - perguntou Lara. - Pensei que os hspedes s chegassem 
amanh.
- Foi o que tambm pensamos, mas o marqus avisou que quinze pessoas vo 
chegar hoje, em vez de amanh, para ficarem  espera do prncipe de Gales 
e de lady Brooke.
- Oh, compreendo! Ento, com certeza voc esteve desfazendo as malas das 
senhoras.
- Foi muito servio, para ser feito antes do jantar - queixou-se Agnes. - 
E as criadas de quarto das senhoras esto cansadas, devido  viagem, de 
modo que apenas fiscalizaram tudo, deixando o trabalho pesado para ns.
- Mesmo assim, no deve ser muito pesado tirar das malas aqueles vestidos 
bonitos que voc me descreveu.
Como se s neste momento a ideia lhe ocorresse, Agnes disse:
- Vou fazer uma coisa, senhorita. Amanh  noite, na hora de pr ordem 
nos quartos, quando os empregados estiverem jantando, posso lev-la 
comigo para lhe mostrar alguns dos vestidos bonitos que lady Lesley 
trouxe.
- Lady Louise tambm veio? - perguntou Lara, curiosa.
- Sim, veio. E, pelo que ouvi, o marqus no a esperava. Ela apareceu com 
lorde Magor, dizendo que pretendia hospedar-se com outras pessoas, mas 
que a abandonaram e que estava certa de que o marqus ficaria feliz em 
v-la.
- Como  que voc sabe que ela disse isto?
- O sr. Neeman, o mordomo, nos contou. Ele disse tambm que o marqus no 
ficou nada satisfeito! Isto no nos surpreendeu, porque os criados andam 
fazendo apostas sobre quanto tempo o marqus levar para procurar outro 
rostinho bonito.
Lara ficou envergonhada, no por Agnes, mas por ela mesma. Uma coisa era 
querer assunto para o seu livro e outra discutir a vida do marqus com os 
empregados da casa.
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No soube por que de repente sentiu vergonha, desejando apenas no ter 
feito perguntas a Agnes e no ter jamais ouvido falar de lady Louise.
- Quer me ajudar a vestir, Agnes? Do contrrio, no estarei pronta quando 
o meu jantar subir. E detesto comida fria.
- Sim,  claro. E amanh vou lev-la comigo, quando no houver perigo de 
que nos vejam.
Lara no respondeu, mas disse a si mesma que no faria uma coisa to 
censurvel como inspecionar as roupas de uma pessoa ausente.
Por outro lado, no podia deixar de pensar como tudo isto seria de 
inestimvel valor para o seu romance.
Na ltima semana, Lara escrevera todo o terceiro captulo. Tinha certeza
de que a descrio das emoes da herona, ao ver a manso ancestral do
duque do romance - baseada naturalmente em Priory - era melhor do que
qualquer coisa que ela jamais escrevera.
Sei que vou vender esse livro e ganhar dinheiro, tanto para mim como para 
papai, pensou. E, se tiver que fazer coisas que mame no aprovaria, no 
posso ter muito escrpulo a este respeito!
Ao mesmo tempo decidiu que, por mais aventureira que quisesse ser, no 
iria ao quarto de lady Louise.
- Tenho pena dela - disse, a si mesma. - Sente-se infeliz por ter perdido 
o marqus, coitada. Mas o fato  que, naturalmente,  errado ela se 
interessar por outro homem, sendo casada.
Seria impossvel descrever, em seu romance, o que uma mulher casada 
sentia por um homem com quem no pudesse se casar, nem como se 
justificava por ser infiel ao marido.
Meu romance tem que ser uma histria de amor correta, feliz, pensou ela.
Entretanto admitiu que, depois de saber tanta coisa a respeito dos amigos 
do marqus e do comportamento do prncipe de Gales, seu romance no 
pareceria autntico se todos os casos de amor fossem puros e inocentes.
Talvez o nico meio de eu ganhar dinheiro seja trabalhando como 
governanta, pensou. Ficou imaginando se iria fazer isto, depois que 
sasse de Priory.
Ocorreu-lhe que quando partisse iria ter saudades no apenas de Georgina, 
mas, em verdade, do prprio marqus.
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Embora o considerasse dominador, achava fascinante conversar com ele. Era 
um homem muito diferente de todos os que ela conhecera. No apenas era um
timo cavaleiro, como tambm muito inteligente.
Embora Jane no lhe tivesse falado sobre isto, Lara sabia que a 
eficincia com que a casa e a propriedade eram dirigidas vinha, no dos 
empregados, e sim do dono.
Seu pai lhe dissera, certa vez, que as pessoas precisam de inspirao, de 
direo e de um ideal. De certo modo, Lara achou que era isto que o
marqus dava aos seus empregados.
Os criados estavam sempre dizendo:
" o que o marqus espera." "O marqus vai ficar zangado, se no fizermos 
isto." "Em Priory, tudo deve ser perfeito. "
Lara tinha certeza de que era isto que fazia daquela propriedade um 
exemplo que, talvez, outras tentassem imitar, sem o mesmo sucesso.
Apesar disto, Lara no compreendia por que, tendo tanta coisa, o marqus 
parecia entediado, irnico e, talvez, infeliz.
Gostaria de ter coragem de lhe perguntar o que havia de errado, mas logo 
riu de sua curiosidade.
Depois que acabou de jantar, tendo o criado levado a bandeja embora, Lara 
fechou a porta da sala de aula, sabendo que ningum mais viria ali.
Desejando escrever sobre tudo o que acontecera quando o marqus ficara 
ouvindo Georgina tocar, tirou da gaveta o caderno de anotaes. Tomou 
nota de tudo e achou que o livro estava parecendo, na realidade, um 
dirio.
Depois que terminou suas anotaes, comeou o quarto captulo.
Percebeu que at agora escrevera quase somente sobre a herona.
Chegara o momento de apresentar o heri. Comeou a descrever o duque, 
mas, depois de escrever duas pginas, percebeu que, na realidade, 
estivera descrevendo o marqus, de maneira acurada e bastante 
inteligente.
Releu o que tinha escrito e perguntou a si mesma:
- Ser que pretendo fazer dele o heri?
No havia dvida de que o marqus se adaptava perfeitamente ao papel do 
duque. Por outro lado, o homem que ela idealizara, antes de vir para 
Priory, era muito diferente.
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Lara tinha muita certeza do que uma governanta inocente e ingnua, como 
Jane, poderia sentir a respeito de um homem como o marqus.
Teria medo dele, pensou Lara.
Releu de novo o que escrevera. Nisto, ouviu um som e, erguendo os olhos, 
percebeu que algum fazia a maaneta da porta girar.
A princpio pensou que fosse imaginao sua. Depois, viu que a maaneta 
tornava a girar e soube quem estava no corredor.
Ouviu uma batida leve, como se a pessoa no quisesse ser ouvida por mais 
ningum. Depois, ouviu algum dizer, baixinho:
- Srta. Wade, quero falar-lhe!
Agora no havia dvida sobre quem era. O corao de Lara teve um
sobressalto de medo.
Depois, ela se lembrou da fechadura forte da porta e continuou sentada,
tendo o cuidado de no fazer o mnimo rudo, tendo prazer em saber que
lorde Magor estava do lado de fora, sem poder entrar.
Ouviu novamente a voz:
- Preciso falar com voc. Deixe-me entrar.
Sentiu que ele ficava  escuta, esperando uma resposta.
Aps vrios segundos, como se ele compreendesse que tinha sido derrotado, 
Lara ouviu-o afastar-se.
Ela juntou as mos, radiante, porque o obrigara a fazer papel de tolo.
Isto o ensinar a deixar as pobres governantas em paz, pensou Lara, 
ficando a imaginar como  que Magor pudera escapar dos outros hspedes, 
l embaixo.
Depois, olhou para o relgio sobre a lareira e notou, com surpresa, que 
j era mais de uma hora da manh. Provavelmente todos tinham ido deitar 
mais cedo, cansados da viagem.
Compreendeu como Jane teria ficado amedrontada, no seu lugar, mas achou 
que a culpa era dela.
- com certeza Jane pensou que os criados achariam estranho, se ela 
trancasse a porta - murmurou Lara.
Pessoalmente, pouco ligava  opinio delas embora tivesse inteno de, no 
dia seguinte, destrancar a porta antes que as criadas viessem limpar a 
sala de aula.
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- Como  que lorde Magor pode agir de um modo to vergonhoso?
- disse, em voz alta.
Se tivesse aberto a porta, ele teria tentado conquist-la, de qualquer 
maneira. E, se ela o permitisse, ele ficaria ali durante horas,
De repente, lembrou-se de uma coisa que at agora lhe fugira da memria. 
Na primeira manh, em Priory, ela ouvira uma sineta forte tocar s seis
horas. No primeiro momento, pensara que fosse um aviso de incndio, mas
depois, notando que tudo estava calmo, conclura que havia outra razo 
para aquilo.
Quando Agnes apareceu, mais tarde, Lara lhe perguntara:
- Que sineta foi aquela que me acordou to cedo?
-  a sineta das cocheiras, senhorita - tinha explicado Agnes. Toca 
sempre s seis horas, quando h hspedes na casa. Nunca tivemos isto 
aqui, mas em certa ocasio, quando estava em Easton Lodge, aonde o 
prncipe de Gales se hospeda frequentemente, o marqus soube que lady 
Brooke fazia com que a sineta das cocheiras tocasse sempre s seis da 
manh. E ele achou que era uma boa ideia.
Lara no tinha mais pensado nisto, mas agora achou que a razo era avisar 
os hspedes que deviam voltar para seus respectivos quartos, antes que os 
criados comeassem a se movimentar.
Ser esta a explicao?, pensou ela. O instinto lhe dizia que sim.
-  uma vergonha! - disse a si mesma. - Papai ficaria escandalizado de eu 
ficar numa casa onde a imoralidade  encorajada to acintosamente.
Esperava que seu pai jamais viesse a saber das coisas que se passavam em 
Priory. Depois, ocorreu-lhe que talvez ele soubesse, muito mais do que 
ela, a respeito do que se passava na alta sociedade, em Londres. Afinal 
de contas, ningum fora mais devasso nem mais extravagante do que o av
de Lara.
Sempre ouvira dizer, em criana, que seu tio Edward era muito "arrojado",
no apenas no campo de batalha, como nos sales de baile.
quela poca compreendia o que isto significava. Mas agora lembrou de que
seu pai dizia que o irmo mais velho no casara porque achara difcil
encontrar uma mulher que o satisfizesse para toda a vida.
Lara ouviu-o dizer  esposa:
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- Ele andou atrs de inmeras mulheres, mas no teve a sorte que tive por
encontr-la, minha querida.
- Estou feliz, embora muitas vezes eu tenha cime das mulheres que ficam
presas a cada palavra de seus sermes e esto sempre prontas a ajudar, na
igreja.
O pai de Lara deu uma risada.
- Para mim, so todas umas velhotas! - disse ele. - E mesmo que fossem
tipos de beleza eu no as notaria tendo voc, minha querida.
Isto  que  amor, pensou Lara, agora. E era o que pretendia descrever em
seu romance, a princpio achando que seria fcil.
Agora, sabia que havia vrios tipos de amor, inclusive o de lady Louise
pelo marqus, que era errado e censurvel. Apesar disto, no podia deixar
de pensar na tristeza da voz dela, quando se referira ao seu caso com 
ele.
Havia o amor do prncipe de Gales por lady Brooke, que era muito mais 
moa do que ele e tinha um marido encantador. Os jornais e revista sempre 
se referiam a ele como sendo um baluarte da alta sociedade.
Por que ser que ela no se contenta com o marido? - pensou Lara.
Era tudo difcil de compreender. Agora que tivera oportunidade de
conhecer muitas coisas a respeito dessas pessoas, Lara sabia que seu pai 
certamente no as aprovaria.
Mas talvez a perdoasse, se seu romance obtivesse sucesso. Poderiam 
reformar a casa paroquial e viver com mais conforto do que atualmente.
Lara sabia que estava procurando desculpas para uma coisa que desagradava 
e fascinava ao mesmo tempo.
Pensou em lorde Magor. Precisava dar um jeito para que, depois que 
partisse, aquele homem no incomodasse mais Jane. Ela era to medrosa 
que, se hoje estivesse no lugar de Lara, teria ficado histrica.
Lembrou-se de que Jane lhe dissera que ficava acordada grande parte da 
noite, com a porta do quarto fechada a chave, com medo de lorde Magor.
O comportamento dele  atroz! - pensou Lara. Se eu no conseguir fazer com
que fique afastado de mim, vou falar com o marqus.
Afinal de contas, o marqus fora to bom, no caso de Georgina, que talvez 
fosse igualmente compreensivo com ela.
Por outro lado, era amigo de lorde Magor. Condenar este homem por
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correr atrs de uma mulher, ou, antes, de "mulheres", era o mesmo que
condenar o marqus por partir o corao de Alice, de Gladys, de Charlotte
e de lady Louise.
Pensando bem, eram elas que o perseguiam...
Ao mesmo tempo, Lara compreendeu que o marqus  quem devia ter procurado 
essas mulheres, em primeiro lugar. Do contrrio, elas no teriam ficado 
de corao partido.
Todos estes pensamentos faziam com que o plano de escrever um romance 
sobre a alta sociedade se tornasse cada vez mais complicado.
- Talvez minha herona deva se apaixonar por um vizinho, filho de um
senhor rural - disse, a si mesma. - E viveriam felizes para sempre.
Mas sabia que no poderia escrever uma histria longa e complicada sobre 
uma aldeia como Little Fladbury. E, se no houvesse obstculos nem 
dificuldades, o romance se tornaria maante depois de duas ou trs mil 
palavras.
- No, tem que ser um duque - disse, a si mesma. - E, assim como o 
prncipe de Gales, ele provavelmente cortejar todas as mulheres bonitas 
que estiveram casadas com outros homens.
Achando esta ideia ridcula, no pde deixar de rir. Depois, largou o 
manuscrito, apagou a luz e foi para seu quarto, trancando a porta antes 
de se despir para entrar na cama.
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CAPTULO VI

No dia seguinte, quando chegou ao campo de corrida, Georgina ficou
decepcionada por no ver nem sinal do marqus.
- Pensei que tio Ulric fosse apostar corrida conosco - queixou-se.
- No tem importncia - respondeu Lara. - Vamos treinar, apostando uma 
com a outra. Assim, quando ele chegar, talvez consigamos venc-lo...
Isto agradou  menina. Lara deu-lhe uma boa dianteira. Depois, antes da 
chegada, puxou a rdea de Glorious para deixar Georgina vencer.
- Tio Ulric acharia isto muito bom! - exclamou ela, excitada.
- Claro que acharia.
Apostaram duas corridas grandes e uma pequena. Depois, achando que 
Georgina j fizera bastante exerccio, Lara props que voltassem para 
casa atravs da mata.
O sol filtrava-se pela folhagem. Lara deixou que sua imaginao vagasse 
por um pas de sonhos. Levou um susto, quando ouviu a exclamao de 
Georgina:
- Olhe l tio Ulric! Vem nos procurar!
Era, de fato, o marqus, montado em Black Kiight. Talvez devido 
animao de Georgina, Lara sentiu seu corao pular.
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O marqus estava muito bonito, quase como um cavaleiro dos tempos antigos 
que ia matar o drago. Lara fez seu cavalo parar, deixando que a menina 
se aproximasse do tio.
- Est atrasado, tio Ulric! Apostamos corrida e venci a srta. Wade duas 
vezes.
- Sinto ter me atrasado e espero que me desculpem - respondeu o marqus. 
Dirigia-se a Georgina, mas olhava para Lara. Ela sorriu e o marqus 
continuou:
- Esqueci meu compromisso com vocs duas, mas amanh procurarei ser mais 
pontual.
- Amanh  domingo, milorde - disse Lara. - Isto quer dizer que teremos 
que montar antes ou depois de irmos  igreja.
Os olhos do marqus brilharam maliciosamente.
- Estou vendo, srta. Wade, que est decididamente me apontando o caminho 
do que  correto.
- O que o senhor fizer, milorde, no  da minha conta, mas acho que 
Georgina deve ir  igreja.
- Sim,  claro - respondeu ele.
Disse isto com expresso cnica, como a insinuar que Lara estava 
censurando o tipo de vida naquela casa, que no respeitava o domingo
como um dia santo.
- Por que no vai conosco  igreja, tio Ulric? - perguntou Georgina.
- Papai costumava ler trechos da Bblia, na igreja, e era muito mais 
interessante do que quando o padre lia.
-  um convite que vou levar em considerao - declarou Ulric.
De novo seu olhar encontrou o de Lara. Havia nele uma expresso que 
parecia de desafio. Pelo menos, foi isto o que a moa achou.
- No vou sugerir apostar corrida com voc agora, porque seus cavalos j 
fizeram bastante exerccio - disse ele. - Mas proponho atravessarmos o 
parque juntos. O capataz acabou de me contar que h uma toca de raposa no 
outro lado da mata, talvez vocs queiram ver os filhotes, antes que sejam 
mortos.
- Mortos? Por que vo mat-los? - exclamou Georgina.
- Porque, se ficarem vivos, mataro os faises e as galinhas d fazenda. 
Voc no teria ovos para o seu desjejum - explicou o marqus.
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Georgina refletiu por um momento. Depois, perguntou: - Os filhotes fariam 
mesmo tanto estrago?
- Infelizmente, creio que sim - respondeu Ulric. - Mas, por enquanto, 
esquea a sorte que os espera. Pense apenas que so jovens e isto, 
infelizmente,  uma coisa que no dura muito para ningum.
O modo com que disse isto fez Lara rir.
- Por que est rindo, srta. Wade? - perguntou ele.
- Porque o senhor fala como se fosse to velho quanto Matusalm.
-  como me sinto, atualmente - respondeu o marqus.
No explicou por que se sentia assim, e Lara respeitou o seu silncio.
Os filhotes de raposa pareciam bolas peludas e fofinhas. No vendo a me, 
Lara calculou que j tivesse sido morta.
Depois, ela e Georgina voltaram sozinhas para casa, pois o marqus 
precisava visitar uma das fazendas dos arrendatrios.
- No quero que matem os filhotes - disse Georgina.
- Nem eu - respondeu Lara. - Mas, quando estudarmos zoologia, ver que os 
animais de rapina lutam uns com os outros. E as raposas no apenas matam 
faises e galinhas, como tambm os coelhos que voc tanto ama, Georgina. 
Matam para se alimentar, e essa  uma regra da vida deles.
Georgina refletiu sobre isto e depois disse:
- Mas  muito, muito errado ser cruel com uma coisa to pequena e 
indefesa, no , srta. Wade?
- Sim,  - declarou Lara com firmeza, pensando em lorde Magor. Depois da 
noite anterior, ela compreendeu exatamente por que Jane
tinha tanto pavor dele. Ficou imaginando quantas outras pobres 
governantas tinham se apavorado com lorde Magor, sem poder impedir que o 
miservel tornasse suas vidas um inferno.
Eu o odeio! pensou Lara.  um dspota, um tirano, e cedo ou tarde me 
vingarei dele!
Achou que talvez Magor fosse  sala de aula  hora do ch. Mas o homem 
no apareceu. Lara soube, no somente pelos empregados, como pelo 
movimento l embaixo, que o prncipe de Gales, lady Brooke e os outros 
convidados do marqus tinham chegado.
A bab foi pr Georgina na cama. Apesar de sua resoluo de no
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acompanhar Agnes ao quarto das hspedes, Lara ficou esperando ansiosa.
Agnes enfiou a cabea no vo da porta e disse:
- Venha depressa, senhorita! Vai ver as senhoras se dirigirem para a sala 
de jantar.
Lara no respondeu. Apenas acompanhou Agnes, subindo outra escada e 
seguindo por um corredor estreito at chegarem ao centro da casa.
Debruou-se e viu trs andares, com a escada principal ligando todos 
eles.
- Ningum vai olhar para to alto, senhorita. Pode debruar-se, que 
ningum a ver.
Dali a um momento, chegaram quatro das criadas mais moas que pareceram 
um tanto constrangidas ao se deparar com Lara, mas tranquilizaram-se 
quando a moa sorriu para elas.
Olhando para baixo, Lara viu os lacaios com suas librs elegantes, 
perucas empoadas, meias brancas e cales de cetim.
Pouco antes das oito horas, a primeira senhora apareceu.
Usava tantos brilhantes na cabea,  volta do pescoo e nos braos, que 
dava a impresso de estar envolta em luz.
Ali de cima, seu vestido parecia muito decotado e, ao mesmo tempo, muito 
enfeitado e bonito. Logo apareceram vrias outras, duas delas 
acompanhadas por cavalheiros com cales pretos at os joelhos. Um deles 
tinha no peito a comenda da Ordem da Jarreteira.
Um a um os convidados desceram a escada, como uma onda de reluzente 
beleza que deixou Lara de respirao suspensa.
Pareciam cisnes graciosos num lago. Os risos subiam at onde estavam Lara 
e as outras.
Lara tinha perdido a conta de quantos eram, quando houve uma pausa, l 
embaixo.
E, ento, viu um vulto cintilante, de vestido branco todo bordado de 
strass. Nos cabelos louros brilhava uma tiara enorme. Lara soube quem 
era, mesmo antes de ouvir Agnes murmurar:
- Lady Brooke!
A seu lado, estava o vulto um tanto pesado do prncipe de Gales.
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Embora no se tocassem, qualquer coisa na expresso do rosto de lady
Brooke, ao olhar para ele, indicava quais eram os seus sentimentos.
 errado! pensou Lara. Ao mesmo tempo, ocorreu-lhe que o amor, fosse como 
fosse, era uma coisa maravilhosa.
O prncipe e lady Brooke atravessaram o hall de mrmore. Lara sabia que 
iam reunir-se aos outros no salo prateado.
Soltou um suspiro.
- Agora v como ela  bonita - murmurou Agnes. - Esse vestido deve ter 
custado uma fortuna!
Lara no respondeu. Estava pensando como poderia descrever isto em seu 
romance, achando que devia tomar notas enquanto tudo estivesse fresco em 
sua memria.
Voltou com Agnes para a escada que descia para a sala de aula.
- Agora preciso ir, senhorita - disse Agnes. - Mas venho busc-la assim 
que as criadas particulares das senhoras tiverem ido jantar. Mas isto 
ainda levar umas duas horas.
Lara sabia que, nas casas grandes, os criados graduados comiam na saleta 
da governanta da casa. Nisto estavam includos os criados e as criadas 
particulares dos hspedes.
A refeio dos criados comeava depois que a dos patres terminava. Agnes 
tinha razo ao dizer que isto levaria umas duas horas no mnimo.
Neste meio tempo Lara se ocuparia escrevendo. Sentou-se  mesa da sala de 
aula, primeiro tomando notas, depois descrevendo a herona do seu posto 
de observao na casa do duque, assim como Lara o fizera, aqui, na casa 
do marqus.
- Ela ficar triste por no estar com as outras - disse Lara, a si mesma. 
- Vai se sentir solitria, desprezada e com cime, porque o duque no 
est pensando nela e sim nas mulheres bonitas e cheias de jias que o 
adulam porque ele  rico e nobre.
Depois, achou que talvez houvesse outras razes para isto.
Lady Louise gostava do marqus por ele mesmo, como homem, pois, sendo 
filha de um duque, no se impressionava com o ttulo e nem com as 
propriedades dele.
Ele no a ama agora, mas ela teve a sorte de despertar o seu interesse 
durante algum tempo, pensou Lara.
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Ficou imaginando o que o marqus diria, se estivesse apaixonado por uma
mulher, e o que sentiria beijando a mulher amada.
Era difcil v-lo sem uma expresso entediada e cnica. Por mais que se 
esforasse, Lara no podia imagin-lo no papel do duque, beijando a 
herona.
- Talvez, como nunca fui beijada, no saberia descrever essa sensao - 
refletiu.
Ficou sentada durante muito tempo, pensando, sem escrever. De repente, 
Agnes apareceu  porta.
- Venha, senhorita. Os outros criados j desceram.
Ocorreu a Lara que era este o momento em que ela deveria agir 
corretamente e ficar onde estava.
Mas a tentao era grande demais e ela seguiu Agnes, que j descia 
apressadamente a escada para o andar de baixo.
Quando Lara a alcanou, Agnes disse:
- Estou atrasada, senhorita, porque a criada de lady Brooke fico 
zanzando e duas vezes tive que avis-la da hora do jantar.
Antes que Lara comentasse alguma coisa, Agnes continuou:
- Ela se d ares de importante, porque sua patroa est sempre com o
prncipe de Gales.  mais realista do que o rei, e todos ns rimos dela
nas suas costas.
Lara riu tambm. Chegaram a uma parte da casa onde ela sabia que ficavam 
os quartos, embora nunca tivesse ido l.
-  aqui que o prncipe dorme. H uma saleta ao lado do quarto. Depois 
vem o quarto de lady Brooke, chamado o "quarto da rainha". O boudoir dela 
fica pegado a este.
Lara nada disse, sabendo o que significavam esses arranjos.
- O marqus dorme no quarto principal, no fim do corredor explicou Agnes, 
apontando para duas portas largas. - Lady Louise ficou muito aborrecida 
quando o "seu quarto", como o chama, e que fica pegado ao do patro, foi 
dado para outra senhora.
Lara nada disse. Dali a um minuto, Agnes continuou:
- Pensei que fossem mudar a disposio dos convidados, depois que ela 
chegou inesperadamente, mas a sra. Blosson tinha ordem do sr. Simpson de 
deixar as coisas como estavam.
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Lara achou que sabia por que lady Louise no tinha sido colocada no
quarto ao lado do marqus, mas depois disse a si mesma que no queria
pensar nisto.
- Mostre-me logo os vestidos de lady Brooke, Agnes. Tenho medo de que 
algum me veja, se eu demorar muito aqui.
-  pouco provvel, senhorita. Quando h uma festa, os criados comem a
mesma coisa que os convidados. O sr. Newman e a sra. Blosson cuidam 
disto. No podemos ser diferentes de Easton Lodge e das outras casas onde 
o patro se hospeda!
Lara tinha certeza de que se tratava de uma competio. Se as coisas no 
corressem melhor em Priory do que em outras casas, os criados se 
sentiriam humilhados.
No querendo fazer comentrios com Agnes, mas apenas ver os vestidos, 
para descrev-los com todos os seus detalhes, Lara entrou no quarto de 
lady Brooke.
Era um aposento grande e bonito que, evidentemente, fora redecorado 
vrios sculos depois de a casa ter sido construda.
O teto era pintado com deusas e cupidos, a cama entalhada com cupidos e 
pombas, as cortinas de brocado azul e as paredes brancas e douradas, com 
painis do mesmo brocado azul.
O tapete Aubusson e a moblia francesa pareceram a Lara parte de um 
sonho.
Agnes j estava abrindo um armrio no outro lado do quarto. Lara viu 
vestidos de todas as cores do arco-ris, movendo-se  brisa como se 
tivessem vida.
Agnes tirou-os, um a um. Lara achou que nenhuma rainha poderia ter um 
enxoval to bonito.
Havia sedas e cetins macios como as nuvens do cu, rendas bordadas de 
strass que pareciam gotas de orvalho.
Havia gazes e tules, fitas e franzidos em tal profuso que era difcil 
no pensar que somente um gnio teria criado tanta beleza.
- Lady Brooke tem jias combinando com todos eles - disse Agnes.
- Hoje est usando brilhantes. Ela possui um adereo de safiras,
inclusive uma tiara. Esto guardadas no estojo de jias, junto com 
esmeraldas, rubis e turquesas que combinam muito com seu cabelo loiro.
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- Nunca pensei que uma mulher pudesse ter tantos vestidos ao mesmo tempo! 
- exclamou Lara.
Agnes riu.
- Estes so apenas alguns dos que ela possui. Sua criada particular me 
disse que ela tem dois quartos cheios de armrios, em Easton Lodge, 
repletos de vestidos. Alguns deles, ela os usa apenas uma vez.
- Creio que isto  que  ser rico! - observou Lara, pensativa.
Ficou imaginando como seria maravilhoso ter nem que fosse um s destes 
vestidos maravilhosos.
"Caso me vestisse como lady Brooke, ser que o marqus me admiraria?"-
pensou Lara.
Riu da ideia, achando que ele nem a notaria no meio de tantas beldades.
- Vou lhe mostrar os chapus - disse Agnes.
Abriu outra parte do armrio, onde havia trs prateleiras com chapus de 
todas as cores, alguns enfeitados com penas de avestruz, outros com 
flores e fitas. Eram todos muito modernos.
Lara j vira desses chapus no Ladies Journal, mas jamais pensou que 
poderia ter um diante de seus olhos.
Teve vontade de experimentar um deles e ver como lhe assentava.
- Vou lhe mostrar uma coisa que a far rir - disse Agnes.
Abriu uma gaveta e Lara pode ver dzias e dzias de luvas, arrumadas de 
tal forma que seria fcil apanhar o par desejado.
Algumas eram compridas, de pelica branca, para serem usadas  noite; 
outras eram de camura de cor, evidentemente para combinar com 
determinado vestido. Havia outras de couro e de renda.
Lara achou incrvel tanta variedade.
Agnes riu da expresso da moa.
- com sapatos  a mesma coisa - disse ela. - Creio que lady Brooke viaja
com, pelo menos, cinquenta pares!
- No  de admirar que precise de um trem especial para vir para c
- comentou Lara, sorrindo.
- Sua Alteza Real tem quase tanta bagagem quanto ela - disse Agnes. - E 
traz dois criados de quarto, um lacaio, um cavalario, dois ajudantes-de-
ordem e um secretrio. Sempre viaja com eles.
100
- Vejo que no  uma pessoa muito fcil de hospedar - comentou Lara.
- No mesmo, mas todo mundo fica orgulhoso de receb-lo em sua casa.
-  compreensvel - observou Lara.
Mais uma vez olhou ao redor, imaginando como seria, pra uma mulher, 
dormir num ambiente to bonito, tendo tudo o que quisesse, alm de saber 
que o prprio rei estava apaixonado por ela.
No podia deixar de pensar que lady Brooke tinha muita, muita sorte. Mas 
no era a felicidade perfeita que Lara queria para si mesma, e para a 
herona de seu romance.
Isto no era possvel, porque lady Brooke e o prncipe eram casados com 
outras pessoas. Por mais que se amassem, sua histria no poderia ter um 
final feliz.
- O que desejo  amar algum como papai e mame se amaram disse, a si 
mesma. - E sentir, no fundo do corao, que nada mais tem importncia no 
mundo.
Agnes estava fechando a porta do armrio.
-  melhor eu fazer o meu servio, senhorita; do contrrio pode haver 
encrenca.
-  claro - disse Lara. - E muito obrigada pelas coisas interessantes
que me mostrou, Agnes. Nunca pensei que uma pessoa pudesse ter roupas
to bonitas. 
- Minha me costumava dizer: "Olhar no custa nada! "
- No, mesmo - concordou Lara. - Gostei de olhar e, mais uma vez,
obrigada.
- De nada, senhorita.
Agnes comeou a tirar a coberta da cama, que era de renda antiga debruada 
de cetim azul.
Lara dirigiu-se para a porta.
Olhou mais uma vez  volta, achando que devia gravar tudo na memria, 
para depois descrever no romance todos os detalhes.
Entrou no corredor.
Percebeu que a sute ocupada por lady Brooke e pelo prncipe ficava longe 
da escada principal do centro da casa. Assim ela teria que ir da ala
101
leste at a ala oeste, para chegar  escada que subia at a sala de
aula.
Ouviu o som de msica, ao longe, e soube de onde vinha.
Quando no havia muitos hspedes eles costumavam danar numa sala pegada 
ao salo prateado, em vez de usarem o salo de baile.
Gostaria de poder olhar, pensou Lara.
As senhoras de saias rodadas deviam ser muito graciosas, danando com
cavalheiros de cales at os joelhos e casaca.
Ficou imaginando com quem o marqus estaria danando, e se ek danava 
bem. Provavelmente devia ser um excelente danarino, j qui tudo o que 
fazia era bem feito.
Nisto, avistou a cabea do marqus, que subia a escada principal.
Lara estava no meio do corredor. Ao v-lo, estacou, em pnico, achando 
que no devia deixar que ele a visse.
Sabia que o marqus iria ficar curioso sobre o que ela estava fazendo 
ali, no corredor que levava ao quarto dele e ao dos seus hspedes.
No seria possvel explicar-lhe que fora com uma das criadas examinar os 
vestidos de lady Brooke.
- O que farei? Onde me esconder? - perguntou a si mesma, desesperada.
Pensou em voltar correndo para perto de Agnes, mas o quarto ficava longe 
demais. Dali a um segundo, o marqus chegaria ao alto da escada e viria 
pelo corredor em direo ao ponto onde ela se encontrava.
Em pnico, Lara abriu a primeira porta que encontrou.
No se lembrava de Agnes lhe ter dito quem dormia ali. Sabia apenas que, 
neste momento, era um lugar onde poderia esconder-se do marqus.
Viu-se num vestbulo pequeno, onde havia duas portas.
Calculou que era uma das sutes que ficavam de cada lado do corredor, com 
um quarto e uma saleta para cada hspede.
Relanceou o olhar em volta, antes de fechar a porta do corredor, com 
esperana de poder ficar ali escondida, at o marqus chegar ao seu 
quarto, se  que ele se dirigia para l.
Sentiu o corao batendo contra o peito. Procurou conter a respirao, 
ficando atenta para ouvir os passos dele.
Depois, viu, consternada, a porta abrir-se e a silhueta do marqus 
delinear-se contra a luz que vinha das arandelas do corredor.
Sem fazer um movimento, no podendo nem mesmo respirar, percebeu
102
que ele fechava a porta do corredor. Teve uma aguda percepo da presena
dele a seu lado, no escuro.
Depois, surpreendentemente, mal podendo acreditar no que estava 
acontecendo, sentiu os braos do marqus  sua volta.
Ele puxou-a contra o peito e beijou-a.
Lara nunca havia sido beijada. Por um momento, tudo lhe pareceu um sonho, 
um produto de sua imaginao.
Ele a apertou mais ainda, beijando-a de um modo possessivo. Lara 
experimentou uma sensao que nunca antes tivera, tomando conta de todo o 
seu ser.
Parecia uma onda, quente e viva, com uma intensidade qu era estranha e, 
ao mesmo tempo, maravilhosa.
De repente Lara compreendeu que era isto o que sempre desejara na vida, 
uma sensao diferente de tudo o que jamais tinha imaginado, mas que era 
simplesmente maravilhosa.
Como se percebesse o que ela estava sentindo, o marqus beijou-a com mais 
fora ainda.
Lara teve a impresso de que ele roubava o seu corao e que ela agora 
fazia parte dele.
Era-lhe impossvel pensar. Podia apenas sentir. Compreendeu que isto era 
amor, o amor que ela sempre procurara, com o qual sonhara.
Depois, quando Lara sentia que ele a levava ao cu, o marqus ergueu a 
cabea e disse, com uma voz rouca:
- Agora preciso deix-la, Daisy, porque o prncipe deve estar  sua 
procura.
Antes que pudesse compreender o que se passava, o marqus a libertou, 
abriu a porta e saiu, tornando a fech-la.
Por um momento, Lara ficou parada, atnita. Sabia apenas que todo o seu 
corpo vibrava com as emoes que ele lhe despertara. Tinha a impresso de 
que a vida pulsava mais fortemente dentro dela, de um modo que jamais 
julgara possvel.
No soube quanto tempo ficou ali, com o corao acelerado, a respirao 
ofegante.
Devia ter sido muito tempo, at ela perceber que voltava de novo  terra 
e podia respirar normalmente.
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Abriu a porta e entrou de mansinho no corredor.
Sem se importar com quem pudesse v-la, saiu correndo, passou pela escada 
principal e enveredou pelo corredor do outro lado, at chegar  escada 
que subia para o andar onde estava situada a sala de aula.
Somente quando sentou-se  mesa pde pensar no que acontecera. Sabia que, 
depois de ter sido beijada pelo marqus, nunca mais seria a mesma.
Ele a despertara para o amor e agora Lara compreendia que o amava h 
muito tempo.
Embora ele estivesse constantemente em seus pensamentos, era inexperiente 
demais para saber que se sentira atrada por ele desde o primeiro 
momento.
Tinha dito a si mesma que ele era cnico e dominador e, ao mesmo tempo, 
galante e encantador.
Agora via que era um verdadeiro homem; agora compreendia que muitas 
mulheres tivessem ficado apaixonadas por ele, e sabia por que lady Louise 
se sentia infeliz ao julgar-se abandonada.
Eu o amo, eu o amo! pensou Lara. Mas achou que isto era to ridculo como 
querer alcanar a lua.
Suspirou profundamente, refletindo que o marqus nunca deveria saber o 
que sentia por ele. Nunca deveria saber que, quando fora beijada, Lara 
lhe entregara no apenas os lbios, mas tambm a alma.
- Ele pensou que estivesse beijando lady Brooke - disse Lara a si mesma. 
- com certeza a ama tanto quanto o prncipe.
Mas no queria voltar  realidade. S o que sentia, ao pensar no marqus, 
era um xtase indescritvel.
- Eu o amo - disse em voz alta.
Ficou imaginando como ele reagiria se soubesse que no beijara lady 
Brooke e sim uma simples governanta, sem importncia social. Ficou ali 
sentada durante muito tempo, at tomar uma deciso.
- Vou voltar para casa! O marqus nunca deve saber o que sinto por ele. 
Se eu ficar aqui, talvez acabe me traindo.
Calculou que ele a desprezaria, que a acharia pretensiosa, se viesse a 
saber o que ela sentia. Preciso ir embora, pensou Lara.
104
Mas a ideia de partir era to dolorosa como uma punhalada no corao, 
pois significava que nunca mais iria ver o marqus.
Era duro contemplar a vida sem ele, tendo apenas a lembrana de seus 
beijos. Lara levantou, desistindo de registrar no papel o que lhe 
acontecera.
Vou para a cama, decidiu ela, dirigindo-se  porta da sala de aula para
fech-la a chave.
Quando estendeu a mo, percebeu que uma coisa estava faltando. A chave!
E Olhou para a fechadura, como se no pudesse acreditar nos prprios 
folhos. Mas era verdade. A chave no estava ali.
Ocorreu-lhe um sbito pensamento. Dirigiu-se rapidamente para o seu
quarto, mas antes de chegar l soube o que havia acontecido. : A chave do
quarto tambm tinha desaparecido.
Compreendeu que o momento que ela previra tinha chegado mais cedo do que
supunha. Era chegada a hora de enfrentar lorde Magor.
Por um momento, sentiu pnico. No podia desafiar o homem que odiava e 
desprezava, enquanto estava ainda vibrando com os beijos do marqus.
Pensou em subir a escada correndo e ir pedir proteo  srta. Nesbit.
Depois, decidiu que no iria fazer uma coisa que indicava fraqueza.
Em vez disto, ia dar a lorde Magor a lio que pretendera desde que 
soubera o quanto ele atemorizara a pobre Jane.
- No sou uma pobre rf, sem pai para me proteger, nem tenho medo de
perder um emprego - disse a si mesma.
Sabia que seu pai podia falar com lorde Magor em condies de gualdade e 
dizer-lhe que ele era um canalha.
O orgulho veio em seu favor. Erguendo a cabea, foi at onde estava sua 
mala, a um canto.
Abriu-a. No fundo, escondidas sob algumas roupas, estavam as pistolas de 
duelo que tinham pertencido a seu bisav.
Lara pegou uma delas. S o fato de toc-la fez com que a coragem que ele 
sempre tivera se transferisse para Lara.
Agora no estava com medo, mas apenas apreensiva. Seu corao batia 
acelerado.
Lara armou a pistola. Segurando-a com firmeza, voltou para a sala de 
aula.
105
Olhou para o relgio sobre a lareira e viu que era mais tarde do que 
pensava. Ficara muito tempo pensando no marqus e no xtase causado por 
seus beijos.
Estava certa de que lorde Magor logo iria aparecer, confiante, achando 
que, desta vez, iria obter o que queria.
Pensou como Jane teria ficado com medo, se estivesse aqui, no lugar dela. 
Lara no sabia bem o que lorde Magor poderia fazer  sua amiga, mas tinha 
certeza de que Jane ficaria doente durante muitos meses.
Nenhum homem poderia ser mais malvado, torturando uma criatura indefesa 
como Jane, pensou Lara.
Lembrou-se da pergunta que Georgina tinha feito neste dia, e achou que a 
menina tivera toda a razo. Lara estava disposta a vingar-se.
Sentou-se  mesa e colocou a pistola no colo, s agora percebendo que 
estava usando o bonito vestido azul que pertencia a Jane.
De repente lhe ocorreu que talvez lorde Magor pensasse que ela colocara 
seu melhor vestido para receb-lo. Mas, neste caso, ele iria ter uma 
surpresa bem desagradvel.
Os minutos passaram lentamente. Na realidade, Lara tinha esperado apenas 
quinze minutos, quando ouviu passos na escada.
Percebeu que lorde Magor estava andando com cuidado, para no ser ouvido.
Imaginou se estaria sorrindo com aquele jeito que ela detestava, um 
sorriso de triunfo por saber que Lara estava indefesa e que, por mais que 
resistisse, seria dominada por ele.
A porta se abriu e Magor ficou olhando para Lara, sentada  mesa, de 
cabea erguida, a luz brilhando em seus cabelos.
Por um momento, houve silncio. Depois, ele sorriu.
- Boa noite. Creio que estava  minha espera.
- Estava, milorde. No podia acreditar que qualquer outra pessoa nesta 
casa tirasse as chaves de ambas as portas.
- De outro modo, eu no poderia entrar aqui - respondeu ele, entrando e 
fechando a porta. - E agora, linda professorinha, vamos deixar de 
brincadeira. Vou provar-lhe que minhas lies so muito agradveis.
- Suponhamos que eu lhe pea que se retire, como um cavalheiro? disse 
Lara.
106
- Neste momento no sou um cavalheiro, e sim um homem que a acha muito 
atraente com seu cabelo ruivo e pele branca. Isto me excita mais do que 
eu possa dizer por meio de palavras.
Aproximou-se da moa e continuou:
- Mas as palavras so desnecessrias entre ns.  muito mais fcil, para 
mim, dizer-lhe o que sinto e o que vou fazer voc sentir, quando 
estivermos perto um do outro.
Deu mais um passo  frente. Lara levantou-se, de pistola em punho. 
Afastou-se da mesa, dizendo:
- Basta, milorde! E, agora, deixe que eu diga o que penso de voc! Notou 
o espanto no olhar de lorde Magor ao ver a pistola. Continuou:
- Eu o desprezo e o detesto! Preferia ser tocada pelo mais vil dos 
rpteis do que por voc. Pretendo fazer com que nunca mais moleste as 
jovens governantas que no so capazes de se defender.
Como estava muito zangada, ela quase cuspiu estas palavras. A princpio 
houve um brilho de clera no olhar de lorde Magor. Depois, ele riu.
- Bravo! Mas voc no ser tola a ponto de prejudicar sua posio aqui, 
ou em qualquer outra casa, atirando em mim.
Fez uma pausa, como que pesando as palavras, e continuou:
- Se voc atirar com esta arma ridcula, sabe perfeitamente que ningum 
jamais lhe dar empregos. E ento, minha beleza, morreria de fome, a no 
ser que eu tomasse conta de voc... o que estou disposto a fazer.
Lara apontava a pistola para ele com firmeza. Magor no se moveu. Disse, 
em tom conciliador:
- Pare de bancar a valente e deixe que lhe diga o que tenho para lhe 
oferecer: uma casa confortvel em St. John's Woode, um cavalo, uma 
carruagem s sua, e jias... Creio que esmeraldas, para que faam com que 
sua pele parea mais branca do que neste momento.
Lara teve a impresso de que havia um fogo no olhar e na voz dele, quando 
disse:
- Deixe-me tocar em sua pele e prometo que ter tudo o que desejar. No 
apenas uma esmeralda, mas um colar delas.
- Prefiro morrer de fome! - exclamou Lara.
107
- Tolice! Eu lhe darei uma vida mais feliz do que voc jamais imaginou.
Deu um passo adiante, ao dizer isto.
- Pare! - avisou Lara.
- Quero segur-la em meus braos - disse lorde Magor. Deu mais um passo.
Foi a que Lara atirou. Tinha inteno de atingir o brao, no o corao, 
mas quando puxou o gatilho, sentiu a pistola pular para cima.
No rudo que se seguiu, ela pensou que tivesse errado o tiro.
Depois, lentamente, de um modo assustador, lorde Magor ps as mos no 
peito e caiu de costas no tapete.
Por um momento, Lara ficou imvel. No podia fazer outra coisa a no ser 
olhar para o homem cado.
Notou que ele estava plido e de olhos fechados.
S a, percebeu aterrorizada o que havia feito.
Matara aquele homem, quando sua inteno era apenas feri-lo no brao. E 
as consequncias de seu ato seriam terrveis.
No conseguia raciocinar.
A exploso a ensurdecera e ela sentia dificuldade de respirar. Sabia que 
lorde Magor estava morto e que a polcia seria chamada. E nada poderia 
ser mais desastroso do que isto, j que o prncipe de Gales estava 
hospedado ali.
Houvera escndalos a respeito do prncipe, antes. Os jornais o tinham 
criticado por suas extravagncias, por seus amigos, e por seu 
procedimento, que incorrera no desagrado da rainha.
Ocorreu-lhe que o marqus seria criticado por permitir que uma coisa to 
vergonhosa como um assassinato acontecesse em sua casa, principalmente 
tendo como hspede o prncipe de Gales.
Eu no devia ter ficado aqui, quando percebi que as chaves tinham 
desaparecido, pensou Lara.
Mas era tarde demais! Lorde Magor estava morto, a seus ps, e o marqus 
jamais a perdoaria.
Alm do mais, ele detestaria que soubessem que seu maior amigo tentara 
seduzir a governanta de sua sobrinha. A publicidade o deixaria furioso.
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Tudo isto passou pela mente de Lara, como um relmpago.
Compreendeu que, fosse como fosse, precisava salvar o marqus das
consequncias do seu crime. Porm no tinha a mnima ideia de como fazer
isto. Colocou a pistola na mesa, depois deu a volta ao corpo de lorde
Magor, chegou  porta. Foi a que lhe veio  mente a nica pessoa que
poderia ajud-la. Uma pessoa que, talvez por milagre, poderia evitar que as
consequncias do crime fossem desastrosas. Sem parar, sem nem mesmo
pensar no que iria dizer, ou como explicar ou ato, resolveu procurar o  
marqus e pedir sua ajuda.
Sem olhar para trs, desceu a escada, chegou ao andar de baixo e correu 
pelo corredor que tomava quase toda a extenso da casa.
Quando chegou diante do quarto do marqus, parou para recobrar o flego.
Seu corao batia tanto que parecia querer arrebentar dentro do peito, 
seus lbios estavam secos e suas mos tremiam.
Mesmo assim, Lara abriu a porta e viu-se num pequeno vestbulo, 
semelhante quele onde o marqus a beijara.
Havia ali uma luz fraca, e ela viu as duas portas, lado a lado. Sem 
pensar, sem nem mesmo bater, ela abriu a mais prxima. A luz do vestbulo 
iluminou as colunas de uma cama grande.
Ficou ali, indecisa, sem poder falar. Ouviu o marqus perguntar:
- Quem ? O que  que voc quer?
Lara ficou to contente por ouvir a voz dele, que se aproximou da cama 
sem receio.
Quase que imediatamente, ele a reconheceu.
Quando Lara chegou perto da cama, o marqus exclamou, com uma nota de 
incredulidade na voz:
- Srta. Wade!
Por um momento, Lara achou que no conseguiria falar. Depois, com uma voz 
que parecia vir de muito longe, ela balbuciou:
- Sinto muito... Sinto muito... Mas atirei em... lorde Magor... e... 
ele... est... morto!
109

CAPTULO VII

Aps um longo silncio, percebendo que Lara estava trmula, o marqus
compreendeu que ela dizia a verdade. Calmamente, em voz baixa, ele falou:
- Fique l fora. No vou demorar mais do que um minuto. Receando que as 
pernas no a sustentassem, Lara passou para o
vestbulo iluminado.
Esperou, sentindo que caa num poo, cada vez mais, e que, quando 
chegasse ao fundo, morreria.
Era isto o que desejava pois, tendo matado lorde Magor, prejudicara o 
marqus irremediavelmente. O assassinato de seu hspede teria repercusso 
em todo o pas.
- Como pude ser to louca? - perguntou a si mesma.
Gostaria de ter tido coragem, antes, de contar ao marqus que tipo de 
homem era lorde Magor. Mas, embora Magor fosse mau, no havia desculpa 
para Lara ter cometido um crime.
No ficou ali no vestbulo mais do que dois ou trs minutos, mas pareceu-
lhe que todo o seu passado deslizava ante seus olhos, acusando-a de ser 
uma criminosa.
O marqus juntou-se a ela.
110
Lara viu que estava totalmente vestido, mas em vez de colarinho e 
gravata, tinha um leno  volta do pescoo, o que lhe dava um ar um tanto 
libertino.
Sem uma palavra, ele abriu a porta e comearam a andar pelo corredor.
A nica luz que ali havia provinha das velas nas arandelas.
Embora alguns aposentos de Priory tivessem eletricidade, uma coisa nova e 
muito elogiada, o marqus conservava as velas tradicionais nos aposentos 
principais e nos corredores-.
As velas eram colocadas em arandelas que, pelo que disseram a Lara, 
tinham sido feitas por um dos maiores praieiros da poca, no reinado de 
Carlos II.
Passaram pela porta do vestbulo onde Lara se escondera e onde o marqus 
a beijara, pensando que ela fosse lady Brooke.
Por um momento, lembrou-se da sensao maravilhosa daquele beijo, que a 
levara ao cu.
Mas disse a si mesma, amargamente, que trara o seu amor e no merecia a 
felicidade que tinha conhecido por um momento e que jamais voltaria.
Somente depois que passaram pela escada principal e chegaram ao corredor 
que levava  sala oeste, foi que o marqus falou:
- Onde est lorde Magor?
- Na sala... de estudo... - Lara conseguiu responder.
- Por que estava l?
Houve uma pausa. Depois, a moa respondeu:
- Ele veio... me ver.
- Voc estava esperando por ele?
A pergunta foi brusca. Lara achou que havia uma nota de desprezo na voz 
do marqus.
Olhava  frente, mas teve a impresso de que o marqus observava o seu 
vestido de noite.
Ficou ainda mais horrorizada ao pensar que ele acreditava que 
deliberadamente tinha procurado despertar o interesse de lorde Magor. No 
suportando esta ideia, disse, vivamente:
- Eu o estava esperando, porque ele tinha tirado a chave da sala de aula 
e a do meu quarto.
111
O marqus parou e virou-se para ela, fitando-a com olhar penetrante:
-  verdade?
- Ele tentou entrar aqui... na noite passada, mas eu tinha fechado a 
porta - respondeu Lara. - Teve que ir embora.
Percebeu que o marqus contraa os lbios.
- Ento, hoje voc o esperou, com inteno de atirar nele?
- Sim!
Houve uma pequena pausa.
- com uma das minhas armas? - perguntou o marqus.
Era difcil responder e Lara compreendeu que isto levaria a outras 
explicaes. Foi obrigada a dizer:
- No. Eu tinha uma pistola de duelo que... pertence a meu pai.
- Voc a trouxe para c, quando veio cuidar de Georgina? Por qu? Lara 
achou que o marqus estava sendo inteligente, arrancando dela a
histria toda to depressa. Queria que, em vez disto, subissem, para ir 
at onde estava o corpo de Magor.
Mas, como se o marqus a mantivesse prisioneira e ela estivesse num 
tribunal, viu-se obrigada a dar a resposta que ele pedia.
Em voz baixa, que ele mal pde ouvir, falou:
- Trouxe a pistola porque sabia... como lorde Magor era.
- Como  que sabia? - perguntou o marqus. Antes que ela respondesse, 
acrescentou:
- com certeza ouviu falar dele pela srta. Cooper.
- Sim... ela estava apavorada... por causa dele... Tomei o lugar dela... 
para que tirasse umas frias.
- Quer dizer que ela no estava doente?
- No. Apenas apavorada... a ponto de eu pensar que ia ter... um colapso 
nervoso.
O marqus respirou fundo e Lara percebeu que estava muito zangado.
Ele nada mais disse. Continuou andando e Lara se viu obrigada a segui-lo, 
at chegarem  escada que levava ao andar de cima.
O marqus foi na frente dela. Quando chegaram  porta da sala de aula, 
Lara se viu rezando para que tivesse acontecido um milagre e o corpo de 
lorde Magor no estivesse mais ali.
Mas, quando olhou para dentro do quarto, viu o corpo onde ela o deixara.
112
Nisto ouviu um grito no quarto de Georgina.
Enquanto o marqus se inclinava sobre o corpo, ela correu para o
quarto da menina e abriu a porta.
- Srta. Wade! Srta. Wade! - gritou Georgina, quando ela entrou.
 Lara viu a menina sentada na cama. Fechou a porta e foi, tateando, at
a cama, procurando por fsforos e dizendo:
 - Est tudo certo, meu bem. Estou aqui!
- Ouvi um estrondo - disse Georgina. - Pensei que estivessem Atirando nos
filhotes de raposa.
com as mos trmulas, Lara acendeu uma vela e sentou-se na cama, de rente 
para Georgina.
- Creio que sonhou, Georgina. Est escuro demais l fora para os uardas
florestais matarem seja o que for.
- Gritei, mas voc no veio - queixou-se Georgina.
- Sinto muito, querida. Mas no a ouvi.
- Eu estava... com medo.
- No h de que ter medo, agora que estou aqui.
- No, agora no - respondeu a menina. - Mas  horrvel ter medo
no escuro.
- Sim, eu sei. Mas agora vou lhe ensinar uma orao que minha me me
ensinou quando eu era mais jovem do que voc. Quero que a reze sempre
que tiver medo de noite.
 -  uma orao mgica? - perguntou Georgina.
- Sempre achei que era - respondeu Lara.
A menina recostou-se nos travesseiros e Lara puxou-lhe as cobertas at
o  queixo.
Depois, rezou a orao que tinha significado tanto na sua infncia. Quase
pde ouvir a voz de sua me, dizendo:
"Ns vos suplicamos, Senhor, que ilumineis nossa escurido. Vossa grande 
misericrdia, defendei-nos dos perigos desta noite; pelo amor de Vosso 
filho nico, nosso Salvador, Jesus Cristo, Amm".
Quando Lara terminou, os olhos de Georgina j estavam fechados. A menina 
disse, sonolenta:
-  uma orao... mgica... e vou sempre rez-la... Lara percebeu, dali a
instantes, que Georgina dormia.
113
Esperou at ter certeza de que no a perturbaria. Apagou a vela e, p 
ante p, dirigiu-se para a porta, guiando-se pela luz que passava pela 
soleira.
Encontrou a sala de aula vazia. No havia sinal do marqus e o corpo de 
lorde Magor tinha desaparecido.
Lara calculou que o marqus o tivesse levado dali. O nico indcio do 
crime era a pistola do pai de Lara, que estava na mesa onde ela a 
deixara.
Pegou-a, levou-a para o seu quarto e escondeu-a no fundo da mala. Ficou 
imaginando se a polcia permitiria que ela fosse para casa e l ficasse 
at o julgamento, ou se seria levada para a priso imediatamente.
Esta ideia era to assustadora, que Lara teve vontade de gritar, mas s o 
que fez foi colocar as mos no peito, para conter as batidas aceleradas 
do corao.
Seu pai teria que saber o que ela fizera. Ele lhe daria sua proteo, mas 
ficaria profundamente abalado com o que acontecera.
A pobre Jane provavelmente teria que depor, contando o que dissera a Lara 
sobre lorde Magor e que, por isto, a amiga levara a pistola para Priory.
- Como  que pude fazer uma coisa to louca, to idiota? perguntou Lara, 
a si mesma. - Oh, mame, ajude-me!
Recorreu  me como se fosse uma criana. Na realidade, neste momento no 
se sentia mais velha do que Georgina.
Queria chorar nos braos da me.
Depois, como se no pudesse evitar tal pensamento, achou que, j que sua 
me morrera, havia apenas um lugar onde se sentiria segura: nos braos do 
marqus.
Tinha vontade de chorar, porque sabia o que agora ele pensava dela.
No poderia suportar uma expresso de censura no olhar dele, nem ouvi-lo 
dizer que a desprezava. Queria fugir imediatamente para nunca mais v-lo.
Mas sabia que, fosse para onde fosse, seria encontrada e levada  
Justia.
Suspirou de tristeza e arrependimento e cobriu os olhos com as mos. 
Nisto ouviu um som na sala de estudo. O marqus tinha voltado.
114
Nada podia fazer, a no ser ir ao encontro dele e enfrentar o que desse e 
viesse.
Ocorreu-lhe que no devia lamentar-se e sim comportar-se com a dignidade 
que ele teria em qualquer circunstncia, por mais dramtica que fosse.
Lentamente, fazendo um esforo sobre-humano, dirigiu-se para a sala de 
aula.
O marqus a esperava de costas para a lareira.
Lara no conseguiu olhar para ele. Adiantou-se e colocou as mos na mesa, 
necessitando de apoio.
Estava novamente trmula e muito plida, o sangue lhe fugira do rosto. 
Mas conseguiu ficar de cabea erguida, embora conservasse os olhos 
baixos.
Houve uma pequena pausa. Depois, o marqus disse, em voz baixa, como se 
tivesse medo de incomodar Georgina:
- Levei lorde Magor para o quarto dele. Ele no morreu.
Por um momento, estas palavras no penetraram na mente de Lara. Depois, 
ela achou que no tinha ouvido direito. Contraiu-se e olhou para o 
marqus.
- Disse que ele... est vivo? - murmurou. O marqus inclinou a cabea.
- Sim, est! Est vivo. Na realidade, o tiro no o atingiu.
- No pode ser verdade - murmurou Lara. - Quando atirei... ele caiu... e 
ps as mos no peito.
Ela se exprimia quase com incoerncia, mas seus olhos ainda fitavam o 
marqus, como se achasse que, por uma razo incompreensvel, ele estava 
mentindo.
- Ele caiu devido a um ataque cardaco - explicou o marqus, serenamente. 
- H j algum tempo que sofre do corao. Dei-lhe o remdio que ele 
sempre tem consigo. Est consciente. Mandei um cavalario chamar o 
mdico.
- ... verdade? - perguntou Lara. -  mesmo... verdade?
- Creio que voc sabe que .
A moa sentou de repente na cadeira, como se as pernas no a 
sustentassem.
115
- Eu tinha tanta certeza de que estava morto - disse, quase como se
falasse consigo mesma. Pensei que tivesse que ir a... julgamento... por
assassinato.
- Ningum deve saber o que aconteceu aqui, hoje  noite - disse o 
marqus, asperamente. - Voc tem que guardar silncio. No fale sobre 
isto com ningum, est ouvindo?
O tom de voz do marqus era duro e frio.
Lara respirou aliviada. Tinha a impresso de que a vida voltava ao seu 
corpo e  sua mente.
Em tom menos severo, como se compreendesse isto, o marqus disse:
- V para a cama! Tudo parecer melhor, de manh. Tomarei conta de tudo.
Olhou para Lara por um longo momento, como se temesse que ela desmaiasse.
Tranquilizando-se atravessou a sala e saiu, fechando a porta.
Lara apoiou os braos na mesa, escondendo o rosto nas mos. Fora salva
por um milagre ou talvez pelas oraes de sua me, mas sabia
perfeitamente o que o marqus estava pensando dela.
Ficou ali sentada durante muito tempo. Depois, levantou-se, foi para o 
seu quarto e comeou a fazer a mala.
- Tenho certeza de que a srta. Cooper aproveitaria bastante mais uma 
semana de frias - disse Nanny. - O descanso sem dvida lhe fez bem, o
que no se pode dizer de voc, srta. Lara!
- Estou cansada, por causa da viagem - replicou a moa, vivamente. - Tive 
que sair de l muito cedo.
- Pois bem, poderia ter avisado seu pai - disse Nanny. - Ele iria busc-
la na estao.
- O fazendeiro Jackson me deu uma carona - respondeu Lara. Nanny sabia
disto, mas Lara queria continuar falando, para impedir que
sua antiga bab continuasse fazendo perguntas sobre sua volta inesperada.
Quando se viu a ss com Jane, Lara lhe contou a razo de sua volta para 
casa.
- Voc pode voltar para Priory, Jane. Lorde Magor teve um ataque do 
corao e provavelmente vai ficar inativo durante muito tempo.
Boas notcias - disse jane - Voc no teve aborrecimentos com ele?
116
- No se interessou por mim - respondeu Lara, esperando ser perdoada pela 
mentira.
- Eu estava muito preocupada.
- Antes de voc voltar para l, quero que saiba o que descobri a respeito 
de Georgina - disse Lara.
Contou que a menina tinha dom para msica e que o marqus pretendia dar-
lhe os melhores professores.
- Neste caso, no vo precisar de mim - replicou Jane, vivamente.
- No sei tocar piano e jamais gostei de msica.
- Voc pode ensinar a Georgina todas as outras coisas - disse Lara.
- Mas, na realidade, Jane, acho que voc seria mais feliz com crianas 
menores.
- Talvez - concordou Jane. - E no creio que algum se importasse, se eu 
sasse de Priory. Talvez pudesse me inscrever numa agncia de empregos, 
como candidata a governanta.
No parecia muito entusiasmada com a ideia.
- Creio que seria melhor voc perguntar a lady Ludlow se ela tem alguma 
amiga com filhos pequenos que precise de uma pessoa como voc. Ou, se 
preferir, posso pedir a papai que lhe escreva, j que  parente dela.
- Isto seria timo - respondeu Jane. Depois, acrescentou: - Acho que  
melhor eu voltar hoje  tarde. Posso passar a noite em Keyston House, em 
Londres. Tenho certeza de que eles daro um jeito de me arranjar uma 
carruagem para me levar a Priory amanh bem cedo.
-  uma boa ideia. Deixei um bilhete para Georgina, dizendo que voc vai 
voltar. Garanto que ela est ansiosa por isto.
Era outra mentira. Lara tinha certeza de que Georgina ia sentir a sua 
falta, principalmente porque no teria com quem sair a cavalo.
Escrevera dizendo que precisava voltar para casa, pois seu pai precisava 
dela urgentemente. Na carta pedia a Georgina que fosse boazinha com a 
srta. Cooper, porque ela estivera doente.
Pedia-lhe tambm que explicasse ao seu tio Ulric que no podia despedir-
se dele, porque precisava sair de manh cedinho.
E conclua:
117
"Voc precisa continuar se aplicando bastante na msica, querida, porque 
sei que vai ser muito, muito bem-sucedida. Ficarei pensando em voc e 
rezando para que seja feliz. Quando tiver tempo, escreva-me, contando o 
que anda fazendo. Sabe que sempre gostarei de ter notcias suas.
Todo o meu carinho e que Deus a abenoe
Lara Wade"
Lara deixou o bilhete do lado de fora do quarto de Georgina, sabendo que 
a srta. Nesbit o entregaria, quando fosse acordar a menina, de manh.
Depois, vestiu seu traje de viagem e esperou at ouvir tocar a sineta das 
cocheiras, s seis horas.
Desceu e pediu ao primeiro lacaio que encontrou, sonolento e em mangas de 
camisa, que fosse at as cocheiras e providenciasse uma carruagem para 
lev-la  estao.
Depois que ele voltou, Lara lhe pediu que trouxesse sua mala para baixo.
Quando saiu de Priory, quinze minutos depois, no havia sinal dos 
empregados mais velhos. Os mais novos simplesmente obedeceram s ordens 
de Lara, sem nenhuma curiosidade de saber por que ela ia embora.
Foi muito mais fcil do que esperava. Dez minutos depois de chegar  
estao, tomou o trem. Mas teve que esperar muito tempo em Londres, para 
pegar um outro que a levaria at Little Fladbury.
Finalmente chegou em casa. Em contraste com Priory, a casa paroquial lhe 
pareceu ainda menor, mais pobre e mais estragada.
Tentou no pensar em nada, a no ser em fazer com que Jane, agora livre 
de lorde Magor, voltasse ao emprego. Seu lugar era ao lado de Georgina.
Lara levou a amiga  estao, pois seu pai estava em casa e o trole 
encontrava-se disponvel.
Depois que o trem partiu, se sentiu to exausta que, ao chegar em casa, 
deitou-se na cama e imediatamente pegou no sono.
Quando acordou, era hora do jantar. Mas estava to plida e abatida, que
Nanny no deixou que levantasse e insistiu em lhe trazer um prato de ovos
mexidos e um copo de leite.
118
Depois de comer, Lara despiu-se, voltou para a cama e adormeceu 
novamente.
Somente de manh, quando o sol entrou no quarto atravs das cortinas 
transparentes, Lara pensou no seu amor pelo marqus: Nunca mais o veria!
Este pensamento a deixou arrasada.
"Como poderei suportar isto? Viver aqui o resto de meus dias, pensando 
nele, desejando estar ao lado dele... "
Apesar de tudo, durante um momento estivera bem junto dele. E, embora 
talvez o marqus o negasse, Lara tinha feito parte dele.
Isto a mudara, isto a transformara, de modo que ela jamais seria a mesma.
- Eu o amo, eu o amo! - murmurou, deitada na cama estreita.
Podia ver o rosto do marqus, quase como se ele estivesse ali no quarto.
Ficou imaginando o que ele pensaria quando soubesse que ela partira.
Talvez ficasse aliviado, pois a ausncia dela evitaria uma situao 
embaraosa quando lorde Magor melhorasse.
Ela teria que demonstrar o seu arrependimento por ter sido tola a ponto 
de fazer justia com suas prprias mos, atirando num homem, por pior que 
fosse o seu comportamento.
Foi loucura, pensou Lara.
Quando desfez a mala, encontrou seu manuscrito, mas de repente no teve 
mais vontade de continuar escrevendo o romance que tanto a absorvera at 
ento.
De que adiantava escrever sobre pessoas que estavam longe de sua maneira 
de pensar e de sentir, de modo que ela nunca poderia torn-las reais e 
humanas aos olhos do leitor?
- Vou escrever um livro sobre as pessoas do campo - disse, a si mesma. - 
Sobre pessoas que conheo, no sobre a sociedade com seu estranho cdigo 
de comportamento.
No dia seguinte, quando tomavam juntos o desjejum, o pai de Lara a olhava 
carinhosamente.
-  bom voc estar de volta, querida.
119
Quando repetiu isto  hora do almoo, Lara compreendeu que realmente o 
pai sentira falta dela.
- Adoro estar aqui com voc, papai - respondeu a moa. - No tenho 
vontade de ir de novo embora.
- Estou contente por voc ter sado um pouco - observou lorde Hurlington. 
- Sei como aqui  montono para voc. Eu gostaria de poder mudar-me para 
outro lugar, mas creio que o bispo se esqueceu da minha existncia.
- Somos muito felizes aqui, papai - disse Lara, com lealdade. Todos 
gostam de voc em Little Fladbury.
Ao mesmo tempo lhe ocorreu que o marqus devia ter muitas residncias em 
suas vastas propriedades.
Seria muito fcil para ele, se assim o desejasse, fazer com que o pai de 
Lara fosse mandado para uma parquia maior, onde ganharia mais. Mas, 
pensou com amargura, isto jamais aconteceria.
Embora tentasse se ocupar em casa, Lara ficava imaginando o que estaria 
acontecendo em Priory e se o marqus estaria pensando nela.
Ficou acordada durante parte da noite, pensando nele. Na segunda-feira, 
lembrou-se de que o prncipe de Gales, lady Brooke e os outros hspedes 
deviam estar fazendo suas despedidas, em Priory.
Inmeras malas seriam trazidas para baixo e colocadas nos carros que as 
levariam para a estao, junto com as criadas e os criados particulares 
dos hspedes.
O prncipe, Lady Brooke e alguns dos seus amigos mais ntimos viajariam 
no trem real.
Ficou imaginando se o marqus iria com eles.
Talvez ele e Georgina fossem para a pista de corrida. Ser que os dois 
sentiriam falta dela?
- Preciso esquecer, no posso continuar pensando nisto - disse Lara a si 
mesma, severamente.
Colocou o chapu na cabea, e dirigiu-se para a aldeia.
Havia l uma senhora idosa, que Lara visitava quando tinha tempo. Estava 
ficando cega e dependia da bondade de um ou de outro vizinho para vir lhe 
contar o que se passava no mundo.
Lara havia apanhado alguns lilases perfumados, no jardim, para dar a essa 
senhora.
120
Isto fez com que se lembrasse de Priory, das moitas por onde passara 
quando ouvira lady Louise dizer o quanto amava o marqus.
Se lady Louise se juntara s mulheres que o tinham amado e perdido, o 
mesmo acontecera com ela, Lara. Mas, no seu caso, o marqus jamais o 
saberia. E ele no correria o risco de ouvi-la queixar-se, nem de v-la 
chegar como hspede indesejvel, como acontecera com lady Louise.
- Neste ponto, ele tem sorte - disse Lara a si mesma, amargamente. Passou 
uma hora com a cega. Como achava difcil pensar em outra
coisa, falou-lhe de Priory e de Georgina. Embora procurasse no mencionar 
o marqus, de vez em quando seu nome entrava na conversa.
Quando Lara se levantou para ir embora, a velha senhora pegou sua mo e 
disse:
- Voc foi machucada, querida. Percebo isto por sua voz. Vou rezar para 
que tudo d certo com voc. s vezes Deus atende s minhas oraes.
- Tenho certeza de que sim - respondeu Lara.
- E voc encontrar a felicidade.  o que o meu corao me diz.  uma boa 
menina, parecida com sua me. Nunca houve uma criatura melhor do que sua 
me.
-  verdade. E obrigada por dizer que me pareo com ela.
- Foi feliz, muito feliz com seu pai. E voc tambm ser feliz. No se 
esquea de que eu lhe disse isto.
- No me esquecerei.
Ao responder isto, Lara pensou na felicidade que desejava, mas que jamais 
obteria.
Voltou para casa pela estrada poeirenta que se torcia por entre as casas, 
passou pelo prado da aldeia e depois divisou o vulto de pedra cinzenta da 
igreja.
Mas o que realmente via era Priory, os gramados aveludados que desciam 
para o riacho onde os antigos monges tinham pescado. As paredes rosadas 
da casa, o hall principal com suas vigas de madeira no teto, onde ela 
vira o marqus pela primeira vez.
Por mais que tentasse, no podia deixar de pensar nele.
No adiantava lutar contra o amor. Mesmo que no pudesse alcanar a lua, 
podia olhar para ela e desejar alcan-la.
121
Abriu a porta da casa paroquial e deixou-a aberta, para que o sol 
entrasse. Sabia que seu pai tinha ido a uma das fazendas, visitar a 
mulher de um fazendeiro, que estava muito doente.
Nanny estava fazendo compras, na aldeia. Lara a vira de longe mas no 
parou para falar com ela.
Preferia ficar sozinha, a ouvir as interminveis perguntas de Nanny. Ela 
queria saber por que Lara estava to plida e no comia quase nada, desde 
que voltara para casa.
Entrou na saleta e subitamente decidiu ir ao jardim apanhar flores para 
dar  casa uma aparncia mais primaveril.
Tirou o chapu e colocou-o numa cadeira; depois foi para a janela e ficou 
olhando o jardim no muito bem cuidado.
De novo pensou em Priory e em sua beleza, que tanto a emocionava.
Descobriu que sentia quase tanta falta de Georgina como do marqus. Nunca 
tivera muito contato com crianas, mas agora compreendeu o quanto lhe 
agradaria ter um filho. A maternidade, porm, era uma coisa que ela
jamais conheceria, pois nunca iria se casar, a no ser por amor.
- O marqus estragou a minha vida - disse a si mesma. - Ele me tirou at 
mesmo os meus sonhos.
Ouviu passos no hall. A porta se abriu. Lara virou-se, pensando que Nanny 
tivesse voltado da aldeia.
Ficou imvel, de repente.
No era Nanny que estava ali. Era o marqus! Muito elegante e imponente, 
ele parecia ocupar toda a saleta.
Lara deixou escapar uma exclamao.
Assustada, perguntou:
- O que aconteceu? Por que est aqui? H alguma coisa... errada? Ocorreu-
lhe de repente que talvez lorde Magor tivesse morrido e que
ela era a responsvel. O marqus fechou a porta e aproximou-se dela.
- No h nada de errado. Mas me recusei a acreditar que voc tivesse 
partido sem me dar uma explicao.
S pelo fato de o marqus estar ali, ou talvez porque havia na voz dele 
uma entonao que ela no compreendia, Lara sentiu seu corao bater 
acelerado.
122
O marqus aproximou-se mais ainda e fitou-a. O sol que entrava pela 
janela fazia com que o cabelo de Lara parecesse ainda mais ruivo.
- Por que veio embora? - perguntou ele.
- Achei que no ia querer que eu ficasse... depois do que fiz.
- Voc poderia ao menos ter pedido a minha opinio - disse ele, 
serenamente.
O marqus estava muito prximo e Lara teve medo. Sentia as vibraes que 
emanavam dele e afastou-se com medo de que ele acabasse percebendo o 
quanto ela o amava.
Estava feliz por v-lo, mas tinha medo de que ele ficasse escandalizado, 
se descobrisse os sentimentos dela.
Lara sentia que todo o seu ser vibrava, sem dvida isto era amor.
- Georgina ficou muito triste, quando soube que voc tinha partido disse 
o marqus.
- Sinto muito... No queria entristec-la - respondeu Lara. - Mas mandei 
a srta. Cooper de volta.
- A srta. Cooper no monta to bem como voc e no  nada musical.
- Voc prometeu que arranjaria professores de msica para Georgina
- disse Lara.
-  o que pretendo fazer. Mas ela me disse que suplicasse para que voc 
voltasse.
Expressou-se numa voz grave, baixa, parecia que havia nela uma nota 
ntima.
Lara estava imaginando o que iria dizer. Sem saber como, falou a verdade.
- No sou... uma governanta.
- Sei disto - respondeu o marqus. - Obriguei a srta. Cooper a me dizer 
quem voc .
- No foi severo com ela? - perguntou Lara, sem refletir.
- Espero que no. Mas no tenho culpa se ela tem pavor de mim, no ?
Havia em sua voz uma nota divertida. Ele acrescentou:
- Como voc nunca teve!
123
- Tive medo de que ficasse zangado comigo... depois que atirei em... 
lorde Magor.
- E no atirou muito bem - declarou o marqus. - Talvez voc precise de 
um pouco mais de prtica.
Agora estava realmente brincando. Lara fitou-o e perguntou:
- No est... zangado comigo?
- No, absolutamente no - declarou o marqus. - Ele teve o que merecia. 
Mas, se voc me tivesse contado o que estava acontecendo, eu o teria 
castigado de maneira muito mais eficaz.
- Como poderia fazer isto? - perguntou Lara, surpresa.
- Nunca mais o convidando para se hospedar em minha casa declarou o 
marqus.
-  verdade?  mesmo verdade? Fico contente, muito contente. Estava 
preocupada, pensando que as governantas so to vulnerveis e podem ser 
perseguidas por homens daquele tipo.
Disse isto sem pensar e depois ficou imaginando se teria falado demais. 
Havia um sorriso nos lbios do marqus. Mas no era o sorriso cnico, 
zombeteiro, de costume. Por uma estranha razo, ele parecia feliz. Aps 
um momento de silncio, o marqus disse:
- Agora que o caso de lorde Magor est resolvido, o que voc pretende 
fazer a respeito de Georgina e, naturalmente, de mim?
Lara arregalou os olhos e perguntou, em tom de desamparo:
- O que posso... fazer?
- Queremos que voc volte para Priory.
Antes que ela pudesse falar alguma coisa, ele concluiu, serenamente: - 
No como governanta, e sim numa posio permanente. Lara respirou fundo. 
Sua expresso ainda era indagadora. O marqus abriu os braos e puxou-a 
contra o peito.
- Vamos verificar se nosso segundo beijo  to maravilhoso quanto o 
primeiro? - perguntou, com uma voz estranha.
No esperou pela resposta. Seus lbios buscaram os dela.
Lara experimentou uma sensao deliciosa. Aquilo era verdade ou fruto da 
sua imaginao?
O xtase que sentira da primeira vez se repetia, fazendo com que todo o
seu corpo vibrasse.
124
O marqus estava to emocionado quanto ela e puxou-a para mais perto; 
seus beijos se tornaram mais apaixonados, mais ardentes.
De novo Lara se sentiu no cu.
Pareceu-lhe que uma luz os envolvia, uma luz que no vinha de fora e sim 
de dentro deles.
O marqus beijou-a at ela ficar sem flego. Lara achou que era 
impossvel sentir tamanha felicidade e no morrer.
Somente depois que ele ergueu a cabea, ela conseguiu dizer:
- Eu amo... voc!... Sei que devo estar sonhando... mas, por favor... 
beije-me de novo... para eu no acordar.
O marqus deu uma risadinha trmula, emocionada, e beijou-a de novo at 
Lara sentir que ele a possua totalmente.
Muito tempo depois, o marqus levou Lara para o sof. Sentaram lado a 
lado e ele ps o brao  volta dos ombros dela.
- Vamos fazer nossos planos, minha adorada...
- Para mim,  difcil pensar em outra coisa, a no ser que... voc me ama 
- disse Lara. - Eu o amo loucamente... e no posso acreditar que voc 
tambm me ama. Por que haveria de me amar?
- Posso dar a resposta agora - disse o marqus. - Quando a vi pela 
primeira vez, no hall principal de Priory, achei que era a criatura mais 
linda que eu jamais encontrara na vida. Seu cabelo vermelho me desafiava 
como uma bandeirinha provocante e fiquei logo sabendo que a queria para 
mim.
Lara deixou escapar um murmrio de felicidade. Ele continuou:
- Mas minha mente muito crtica, muito exigente, fez a mesma pergunta que 
voc fez agora. Eu disse a mim mesmo que as governantas no eram da minha 
conta e que eu devia ter bebido demais, na vspera.
- Apesar disto... me beijou - murmurou Lara.
- Como eu poderia evit-lo? Vi quando voc entrou no quarto e percebi que 
no queria que eu a visse.
Apertou-a com fora e continuou:
- Pretendia perguntar-lhe o que voc estava fazendo naquele corredor, em 
vez de estar na sala de aula, mas, quando a vi escondida no escuro, no
pude controlar o desejo que senti por voc.
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- Foi maravilhoso... Nunca pensei que um beijo pudesse ser to divino... 
Mas voc pensou que era lady Brooke.
- Eu disse isto apenas para me proteger de meus prprios sentimentos.
- Mas sabia... que era eu?
- Acredita que eu no iria perceber que aquele beijo era diferente de 
qualquer outro? E que no notaria quem era que eu estava beijando?
- Para mim foi... maravilhoso.
- Nunca tinha sido beijada antes?
- No!
- Eu tinha certeza disto, minha querida. Tanta certeza que fiquei 
contando as horas at meus hspedes partirem, para tornar a beij-la.
Lara encostou a cabea no ombro do marqus.
- Achei que voc iria ficar escandalizado... se soubesse que eu fora ver 
os vestidos de lady Brooke.
Disse isto como se confessasse um ato censurvel. Por outro lado, tinha 
que ser sincera.
- Voc vai ter vestidos muito mais bonitos - prometeu o marqus, 
sorrindo. - Mas  to linda, querida, que a adoro assim como est. E ns 
vamos nos respeitar um ao outro.
- Nunca tentaria dominar... voc - respondeu Lara. - Ao mesmo tempo, 
gosto de discutir com voc.  estimulante de um modo que no sei 
explicar.
-  estimulante para mim, tambm. Desde que a conheci, minha querida, 
fiquei sabendo por que as outras mulheres me entediavam tanto.  porque 
eu sempre sabia o que iam dizer, antes mesmo que pronunciassem uma nica 
palavra!
Beijou a testa de Lara e continuou:
- Em vez de me estimularem, elas apenas agiam como um sedativo mental.
Lara deu uma risadinha. - Suponhamos que... depois de algum tempo...
voc me achasse aborrecida, tambm? Sabe como sou ignorante a respeito do 
seu mundo. Nunca tive vida social... E voc teria-perdido a liberdade... 
sem nada ganhar.
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Teria ganho voc - declarou o marqus. - E  tudo o que desejo, pelo que a
srta. Cooper me disse, sei que voc  muito pobre e que morou aqui a vida
inteira. Mas sei tambm que jamais me causar tdio querida. Alm do mais,
tenho muita coisa para lhe ensinar.
- Voc quer... fazer isto?
- Mais do que qualquer outra coisa no mundo, quero ensinar sobre o amor. E
temos muita coisa em comum: os cavalos, a musica e um dia, se Deus
quiser, os nossos filhos.
Percebeu que Lara corava. Continuou:
- Quando a observava, enquanto voc ouvia Georgina tocar piano ninha
querida, soube que era isto que eu queria que voc sentisse  respeito de
nossas filhas e de nossos filhos.
- Gosto muito de Georgina e sei que adoraria ter... filhos meus.
- Seus? - exclamou o marqus. - Creio que tambm tomarei parti nisso,
querida.
Lara corou de novo e disse:
- Hoje, antes de voc aparecer, estive pensando que eu nunca teria
filhos... porque jamais me casaria... com um homem que no amasse como
amo... voc.
Ao dizer isto, virou o rosto para o marqus e ele a beijou.
Lara percebeu que o excitara e agora havia nos beijos dele um fogo e uma
paixo muito mais exigentes.
Sentiu que o marqus queria que ela se entregasse totalmente.
Era tambm o que ela desejava. Queria entregar-lhe no apenas corao e 
sua alma, como tambm o seu corpo.
- Quero voc, Lara - disse o marqus.  - Quando quer casar-se comigo? O
mais depressa possvel?
- Quero ser sua esposa. Quero isto... mais do que qualquer outra coisa
na vida. Mas ainda tenho... medo.
- De mim? - perguntou o marqus. Lara sorriu.
- No realmente, embora voc s vezes seja assustador. Tenho o de...
decepcion-lo.
- Isto jamais acontecer. Tenho a impresso de que o futuro vai Ser
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uma aventura excitante para ns dois. Temos muito o que descobrir um
sobre o outro. Para mim, vai ser emocionante.
-  verdade? - perguntou Lara. - Se voc fosse ficar entediado... depois 
de estarmos casados durante algum tempo... seria melhor eu dizer "no" 
agora... para no sofrer... desesperadamente, mais tarde.
O marqus abraou-a com tanta fora, que ela mal pde respirar.
- No vou permitir que diga "no". Voc vai se casar comigo assim que seu 
pai puder celebrar o casamento. E depois no terei tempo de ficar 
entediado, quando voc discutir comigo e tentar me obrigar a fazer um 
milho de coisas que nunca fiz antes.
Lara riu e o marqus tornou a beij-la.
Ela soube que, embora eles certamente fossem discutir de vez em quando, e 
talvez at mesmo brigar, o amor dos dois era imenso, avassalador. Lara 
compreendia que tambm era diferente de qualquer amor que ele tivesse 
sentido em sua vida de aventuras.
Eles no se desejavam apenas como homem e mulher, mas tambm de um modo 
espiritual.
Juntos, procurariam o que houvesse de mais belo, de mais elevado.
Lara compreendeu que eles tinham encontrado o amor que ela tentara 
descrever em seu romance.
Era o amor que homens e mulheres haviam procurado durante o decorrer dos 
sculos.
Seria o amor de duas criaturas unidas pelo sacramento do matrimnio, que 
se tornariam uma s pessoa.
- Eu o amo... - murmurou Lara.
- E eu a adoro - respondeu o marqus.
Compreenderam ento que teriam a luz divina para inspir-los, gui-los e 
proteg-los durante toda a vida.
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                            ****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes 
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita 
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou 
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. 
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que 
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides 
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das 
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de 
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e 
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do 
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo 
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de 
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
Fim
